Goiás tem quase seis pretendentes por criança apta à adoção, aponta CNJ
Goiás registra atualmente um cenário de desequilíbrio no sistema de adoção. Apesar do número elevado de interessados, a efetivação dos processos ainda enfrenta entraves relacionados ao perfil das crianças e adolescentes disponíveis.
Dados do Painel de Acompanhamento do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça, apontam que o estado possui 963 pretendentes habilitados para adoção. Em contrapartida, apenas 172 crianças e adolescentes estão juridicamente aptos, o que representa cerca de 5,6 interessados por menor.
A coordenadora da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, juíza Célia Regina Lara, explica que a diferença está diretamente ligada ao perfil buscado pelos adotantes.
Entre os 172 aptos à adoção, a maior parte não se enquadra nas preferências mais comuns. Apenas 14 crianças têm entre 0 e 2 anos. Já a maioria está em faixas etárias mais avançadas, com destaque para adolescentes: 25 entre 12 e 14 anos, 27 entre 14 e 16 anos e 34 com mais de 16 anos.
Outro fator relevante é a composição familiar. Apenas 58 crianças não possuem irmãos, enquanto muitos pretendentes ainda resistem à adoção de grupos. Além disso, há casos de menores com doenças ou deficiências, o que também reduz as chances de compatibilidade.
Segundo a magistrada, o processo de habilitação exige uma série de etapas, como apresentação de documentos, certidões negativas, exames de saúde e participação em cursos psicossociais e jurídicos. Após esse processo, o pretendente define o perfil desejado — que é inserido no sistema e utilizado no cruzamento com as crianças disponíveis.
“Em geral, os pretendentes priorizam crianças na primeira infância, sem irmãos e sem condições de saúde específicas. Isso faz com que muitos permaneçam mais tempo na fila”, destaca.
Atualmente, o estado conta com 865 crianças e adolescentes em serviços de acolhimento. No entanto, nem todos estão aptos à adoção. Parte ainda passa por processos de reintegração familiar ou por etapas judiciais, como destituição ou extinção do poder familiar.
Outros 70 menores já estão em processo de adoção, enquanto 37 fazem parte da chamada busca ativa — estratégia que tenta encontrar famílias para adolescentes ou crianças com menor probabilidade de adoção espontânea.
O sistema também registra 88 casos de entrega voluntária, quando pais ou responsáveis formalizam junto à Justiça a decisão de não permanecer com a criança, permitindo o encaminhamento mais ágil para adoção.
Desde 2019, Goiás contabiliza 647 adoções. No mesmo período, 2.777 crianças e adolescentes foram reintegrados às famílias de origem, mostrando que essa ainda é a principal alternativa adotada pelo sistema.
Além da adoção, existem iniciativas como o apadrinhamento, que permite a convivência afetiva e apoio a crianças acolhidas. Já adolescentes que não são adotados passam por preparação para a vida adulta por meio de programas como o Novos Caminhos, com foco em educação, capacitação e autonomia.
A expectativa do Judiciário é ampliar as possibilidades de inserção familiar. “Nenhuma criança deve crescer em unidade de acolhimento se houver a possibilidade de viver em família. Esse é o caminho para garantir afeto, segurança e desenvolvimento”, reforça a juíza.
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