“A violência não é só física”: audiência na Alego emociona e reforça luta contra feminicídios em Goiás
A Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) promoveu, nesta segunda-feira (20), uma das audiências públicas mais marcantes do ano. O debate abordou o aumento dos casos de feminicídio no estado e emocionou o público presente. O evento foi conduzido pela deputada estadual Dra. Zeli (União Brasil), procuradora especial da Mulher, e contou com a presença da deputada federal Sylvie Alves (UB), além de procuradoras municipais, familiares de vítimas e representantes de movimentos femininos.
Durante o encontro, o clima de emoção tomou conta do plenário. De mãos dadas com Sylvie Alves, Dra. Zeli iniciou a audiência com um apelo pela empatia e pela união entre as mulheres.
“Às vezes me pergunto se é a rapidez das redes sociais que nos traz tantas notícias de tragédias, ou se parece mesmo que tudo o que fazemos acaba, de alguma forma, incentivando mais violência. Este é o momento de nos unirmos, de nos fortalecermos e de entendermos o que é empatia umas com as outras — porque a violência não é só física”, afirmou a parlamentar, sob aplausos.
Em seguida, a deputada destacou o papel essencial das procuradorias da mulher nos municípios, responsáveis por orientar, acolher e proteger mulheres em situação de vulnerabilidade.
“Essas procuradoras chegam onde o Estado não chega, nos bairros mais distantes, nas comunidades em que as mulheres não têm nem o dinheiro da passagem de ônibus para pedir ajuda. E, mesmo assim, elas sofrem violências sutis, silenciosas, que nos fortalecem ainda mais para continuar lutando”, completou.
Além disso, Dra. Zeli defendeu punições mais rigorosas para os agressores.
“O melhor caminho é o do rigor das leis. Isso foge das nossas mãos como deputadas estaduais, mas está nas mãos do Congresso Nacional, que pode e deve fazer as mudanças necessárias”, afirmou.
Dados alarmantes
Os números apresentados durante a audiência reforçam a gravidade da violência de gênero em Goiás. Atualmente, quase metade das mulheres assassinadas no estado (47,1%) foram vítimas de feminicídio, segundo dados nacionais. A taxa de 1,5 feminicídios por 100 mil mulheres coloca Goiás na 13ª posição nacional, empatado com outras quatro unidades da federação.
Além disso, o canal nacional de denúncias Ligue 180 registrou 18.232 atendimentos a mulheres goianas em 2024, o que representa um aumento de 34,1% em relação a 2023. As denúncias formais cresceram 26,9%, saltando de 3.483 para 4.422 casos, conforme dados do Ministério das Mulheres. Do total, 3.853 registros ocorreram por telefone e 475 via WhatsApp.
Esses números demonstram que, embora as políticas públicas estejam avançando, a violência de gênero ainda exige atenção contínua e ações mais efetivas do poder público.
Histórias que chocam e comovem
Entre os depoimentos mais emocionantes da audiência, o de Roberto Campos, pai da advogada Jordana Fraga Martins David, vítima de feminicídio em 2018, comoveu o público.
“São sete anos de dor. Quero acreditar na justiça dos homens, para que esse caso sirva de exemplo e salve outras mulheres”, declarou.
Por outro lado, histórias de sobrevivência também inspiraram os presentes. Railma Lisboa da Silva, de 27 anos, relatou como sobreviveu a uma tentativa de feminicídio após ser atacada pelo ex-companheiro.
“Ele me esperou na rua, bateu na moto em que eu estava e me golpeou com um facão. Perdi parte do braço e da mão. Sobrevivi por milagre”, contou, em lágrimas.
Outros casos, como o da adolescente Amélia Vitória, estuprada e morta em Aparecida de Goiânia, e o da servidora pública Nádia Gonçalves de Aguiar, assassinada pelo namorado em Bela Vista de Goiás, também foram lembrados, reforçando a urgência do debate.
Rede de empatia e ação
Ao encerrar a audiência, Dra. Zeli reafirmou o compromisso da Procuradoria Especial da Mulher da Alego em fortalecer a rede de proteção e ampliar a interiorização das procuradorias municipais.
“Nenhuma mulher pode se sentir sozinha. Nossa missão é garantir que cada uma delas saiba que tem onde buscar apoio, proteção e justiça”, concluiu a parlamentar.
Dessa forma, o evento foi marcado não apenas por emoção, mas também por mobilização. Entre lágrimas, aplausos e desabafos, a audiência transformou a dor das vítimas em um chamado coletivo à ação: construir um estado mais seguro, empático e justo para todas as mulheres goianas.
Por Gessica Vieira
Foto: Hellen Reis / ALEGO
Jornalismo Portal Pn7
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