O greening continua mudando as decisões de investimento na citricultura paulista. Apesar de a incidência da doença ter registrado o menor avanço em nove anos, a severidade aumentou nos pomares, mantendo a preocupação com perdas produtivas e a rentabilidade da atividade.
Levantamento do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), divulgado em agosto de 2026, apontou que a incidência do greening no cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo/Sudoeste Mineiro passou de 47,63% em 2025 para 48,08% em 2026. No mesmo período, a severidade média aumentou de 22,7% para 27%.
O cenário leva produtores a avaliar com mais cautela a renovação de áreas afetadas e a implantação de novos pomares em regiões consideradas de menor risco.
Doença avança mais lentamente, mas compromete as árvores
O greening, também conhecido como Huanglongbing (HLB), é uma doença que afeta as plantas cítricas e não tem cura disponível. Sua transmissão está associada ao psilídeo Diaphorina citri, inseto que dissemina a bactéria causadora da doença.
Embora a incidência tenha crescido menos entre 2025 e 2026, o aumento da severidade indica que as árvores infectadas continuam sofrendo os efeitos do problema. A doença pode comprometer o desenvolvimento das plantas, a qualidade dos frutos e a produtividade, além de provocar queda prematura das laranjas.
As diferenças regionais também são significativas. Em 2026, a incidência chegou a 82,10% em Limeira, 72,43% em Porto Ferreira e 69,50% em Avaré. Na região de Votuporanga, o índice foi de 4,63%, segundo o levantamento do Fundecitrus.
Essas diferenças influenciam a avaliação de risco para a implantação de novos pomares e ajudam a explicar o interesse por áreas com menor pressão da doença.
Custos e preços pressionam a rentabilidade
Além do risco sanitário, o citricultor precisa lidar com os custos de implantação, manejo e manutenção dos pomares. O controle do inseto transmissor, o monitoramento das plantas e a retirada de árvores infectadas exigem recursos e podem reduzir a capacidade produtiva da propriedade.
Estudo do Cepea/Esalq-USP publicado em maio de 2026 apontou que, em um modelo de produção de sequeiro no centro-sul paulista, o custo total passou de R$ 42,7 mil por hectare na safra 2025/26 para R$ 46,8 mil na temporada 2026/27, alta de aproximadamente 9,6%.
Já entre 19 e 23 de outubro de 2026, a laranja pera destinada à indústria foi negociada, em média, a R$ 27,59 por caixa de 40,8 quilos no mercado spot paulista, conforme dados do Cepea.
O cenário reforça a importância da produtividade, da gestão financeira e das condições de comercialização para a sustentabilidade dos negócios. Os resultados, porém, também dependem de fatores como clima, contratos, demanda e mercado internacional de suco de laranja.
Novos plantios mudam o mapa da citricultura
O levantamento do Fundecitrus registrou 12.504 hectares de erradicação e 17.821 hectares de novos plantios no cinturão citrícola no período 2025/26.
As regiões mais afetadas pelo greening concentraram 74% da área erradicada, enquanto 45% dos novos plantios ocorreram em regiões classificadas como de menor risco.
O movimento indica uma reorganização dos investimentos, mas não significa necessariamente o abandono da citricultura paulista. Parte dos produtores busca renovar pomares em localidades com condições sanitárias mais favoráveis, enquanto outras áreas de expansão são avaliadas em estados como Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
A escolha de novas regiões, entretanto, também depende de infraestrutura, disponibilidade de água, logística e proximidade de unidades de processamento.
Pesquisa busca alternativas de longo prazo
Instituições de pesquisa trabalham no desenvolvimento de estratégias mais eficientes para enfrentar o greening. Em janeiro de 2026, a Fapesp, a Esalq/USP e o Fundecitrus formalizaram a criação do Centro de Pesquisa Aplicada em Inovação e Sustentabilidade da Citricultura, sediado em Piracicaba, São Paulo.
A iniciativa reúne pesquisadores para estudar a interação entre a bactéria, o inseto transmissor e as plantas, além de investigar novas formas de controle e possibilidades de desenvolver variedades resistentes.
Enquanto essas soluções são pesquisadas, o manejo preventivo, o monitoramento dos pomares e o controle do psilídeo continuam fundamentais para reduzir a disseminação da doença.
O desafio da citricultura é conciliar a preservação das árvores produtivas com a renovação dos pomares e a escolha criteriosa de novas áreas. Mesmo com a desaceleração da incidência, a elevação da severidade mostra que o greening continua sendo um dos principais fatores de risco para o futuro do setor.







