Violência doméstica e liderança tóxica: um risco silencioso dentro da empresa

Violência doméstica e liderança tóxica: um risco silencioso dentro da empresa

A violência doméstica deixa marcas profundas. Do ponto de vista da saúde mental, mulheres vítimas desse tipo de agressão podem desenvolver ansiedade, depressão, hipervigilância e reações emocionais intensas. O que muitas empresas ignoram é que esses traumas não ficam fora do ambiente de trabalho.

Estudos em psicologia organizacional mostram que traumas não tratados podem influenciar diretamente o estilo de liderança. Em cargos de chefia, isso pode se traduzir em controle excessivo, microgestão, desconfiança constante, rigidez extrema ou reações desproporcionais. O poder não elimina o trauma — ele pode amplificá-lo.

Isso não significa que toda mulher vítima de violência se tornará uma líder abusiva. A maioria não se torna agressora. No entanto, a literatura reconhece o chamado ciclo da violência: parte dos comportamentos abusivos pode surgir quando experiências traumáticas não são elaboradas e acabam sendo reproduzidas em outros contextos, inclusive no profissional.

No ambiente corporativo, os dados são claros: mulheres também praticam assédio moral, inclusive contra outras mulheres. Isso desmonta a falsa ideia de que liderança tóxica é apenas um problema masculino. As causas, porém, são múltiplas — pressão por resultados, cultura organizacional permissiva, falta de preparo para liderar e, em alguns casos, sofrimento psíquico não tratado.

Do ponto de vista jurídico, o recado às empresas é objetivo: trauma não justifica conduta abusiva. Assédio moral continua sendo falta grave, ainda que o agressor esteja emocionalmente fragilizado. A empresa que tolera gritos, humilhações, perseguições ou constrangimentos assume risco de responsabilização.

A legislação já exige postura ativa do empregador. A Lei Maria da Penha, a Lei 14.457/2022 e as normas de prevenção ao assédio impõem dever de acolhimento, prevenção e intervenção. Isso inclui canais de denúncia, treinamentos, políticas claras e atuação firme do RH.

A gestão moderna exige equilíbrio: empatia sem conivência. Empresas maduras investigam, punem quando necessário e, paralelamente, oferecem apoio psicológico e ajustes organizacionais para evitar que sofrimento pessoal se transforme em dano coletivo.

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Víctor Santana Costa

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