VÍDEO | Produtividade demais também cansa: os efeitos do excesso de cobrança


 

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PRODUTIVIDADE DEMAIS TAMBÉM CANSA: QUANDO ATÉ O DESCANSO VIRA COBRANÇA

Acordar pensando no que precisa ser produzido, cumprir tarefas, responder mensagens, acompanhar metas, trabalhar, fazer exercícios e ainda tentar aproveitar o tempo livre. Para muita gente, essa rotina parece normal. O problema começa quando até o momento de descanso vem acompanhado da sensação de que seria necessário estar fazendo alguma coisa.

A busca por aproveitar cada minuto do dia pode parecer positiva, mas, quando a necessidade de produzir não deixa espaço para simplesmente viver, ela pode contribuir para o aumento da exaustão e do estresse.

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O psicólogo do trabalho Lucas Freire, ouvido pela CNN Brasil, explica que existe uma diferença entre esforço e exaustão. O esforço faz parte da vida e pode trazer satisfação e energia. Já quando se transforma em uma sobrecarga constante, começa a retirar da rotina justamente um elemento necessário: o tempo livre.

É nesse cenário que surge uma sensação cada vez mais comum: o expediente termina, mas a mente continua funcionando como se o trabalho ainda não tivesse acabado.

A pessoa pode deixar o ambiente profissional, mas continuar pensando nas tarefas, nas metas e naquilo que ainda precisa fazer.

Segundo o especialista, esse excesso de cobrança também está relacionado à chamada “metrificação da vida”. Na prática, cada vez mais atividades passam a ser acompanhadas por números, metas e indicadores.

Quantidade de passos, calorias gastas, horas de sono, quilômetros percorridos e tarefas concluídas são alguns exemplos.

Até atividades que deveriam representar momentos de lazer podem ganhar objetivos de desempenho.

Uma corrida, por exemplo, pode deixar de ser apenas uma atividade prazerosa e passar a ser acompanhada exclusivamente pelos números registrados pelo relógio. Uma refeição pode ser transformada em conteúdo para fotografar, publicar ou registrar.

Para Lucas Freire, essa aplicação constante de metas e indicadores também durante o lazer pode empobrecer a experiência e criar uma espécie de “cativeiro neurológico”.

A contradição está justamente aí: aquilo que deveria ajudar a relaxar pode se transformar em mais uma tarefa a cumprir.

O estresse, por si só, não é necessariamente negativo. Trata-se de uma reação natural do organismo e faz parte da vida. O problema aparece quando o estado de alerta se torna frequente e não existe tempo suficiente para recuperação.

De acordo com o psicólogo entrevistado pela CNN Brasil, a sobrecarga de estresse pode ser uma porta de entrada para transtornos de ansiedade e estar relacionada a quadros como ansiedade generalizada, fobias e depressão.

Existe ainda um termo usado para descrever a dificuldade de relaxar sem sentir culpa: “stresslaxing”.

É quando a pessoa finalmente se senta para descansar, mas continua pensando no que deveria estar fazendo.

Pode ser estudar enquanto está no sofá, lembrar de uma tarefa durante um momento de descanso ou até estar com amigos e sentir que poderia estar produzindo.

O corpo para, mas a cabeça continua trabalhando.

Quando essa rotina se torna constante, os efeitos podem ultrapassar a sensação de cansaço.

O estresse crônico pode comprometer a capacidade do organismo de se recuperar adequadamente. Entre os sintomas físicos citados pelo especialista estão problemas gastrointestinais e queda de cabelo, também chamada de alopecia.

É como se o organismo sinalizasse que precisa de uma pausa.

Mas por que pode ser tão difícil simplesmente parar?

Uma das explicações apresentadas pelo psicólogo é que a sociedade passou a valorizar tanto o desempenho que atividades sem uma finalidade produtiva começaram a ser vistas como perda de tempo.

Brincar precisa ter uma finalidade?

Fazer arte precisa gerar resultado?

Praticar um esporte precisa necessariamente melhorar o desempenho?

Viajar precisa render fotos?

E até descansar pode acabar sendo encarado apenas como uma forma de recuperar energia para voltar a produzir.

A proposta apresentada pelo especialista não significa abandonar responsabilidades ou deixar de buscar resultados.

A ideia é recuperar espaço para atividades que não precisam necessariamente gerar dinheiro, desempenho ou reconhecimento.

Nesse contexto, aparece o conceito de “play”, palavra em inglês associada a brincar, jogar, tocar, interpretar e explorar atividades lúdicas.

Para os adultos, isso pode significar permitir-se fazer alguma coisa simplesmente porque gosta.

Sem precisar ser excelente.

Sem transformar necessariamente o hobby em profissão.

Sem medir tudo.

Nem toda corrida precisa resultar em um recorde. Nem todo hobby precisa virar negócio. Nem todo momento livre precisa ser preenchido.

Aceitar fazer algo em que não se é bom também pode fazer parte desse processo.

Produtividade é importante. Trabalhar, estudar, cuidar das responsabilidades e buscar objetivos fazem parte da vida.

Mas, quando cada minuto precisa justificar sua existência por meio de algum resultado, a própria vida pode começar a parecer uma grande planilha.

Descansar não significa necessariamente perder tempo.

Também pode significar recuperar espaço para aquilo que não pode ser medido: conversar, brincar, criar, rir, experimentar e simplesmente estar presente.

No fim das contas, nem tudo que importa precisa virar número.

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Letícia Santana Alves

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