‘Pai de Brasília’ troca vida na capital do país por emprego em Goiânia

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Primeiro comício de JK como candidato à Presidência da República; Juscelino aparece sobre um caminhão quebrado, enquanto o advogado Antônio Soares está na plateia, sinalizado com a circunferência vermelha (Foto: Antônio Soares Neto/Arquivo pessoal)
Primeiro comício de JK como candidato à Presidência da República; Juscelino aparece sobre um caminhão quebrado, enquanto o advogado Antônio Soares está na plateia, sinalizado com a circunferência vermelha (Foto: Antônio Soares Neto/Arquivo pessoal)
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Autor da pergunta “embaraçosa” que obrigou o então candidato à Presidência da República Juscelino Kubitschek a incluir a construção de Brasília no seu plano de governo, o advogado Antônio Soares Neto, de 88 anos, se emociona ao falar do aniversário da cidade. A capital do país, que completa 54 anos na segunda-feira (21), passou a ser projeto de JK depois de uma cobrança feita pelo advogado no primeiro comício eleitoral, em Jataí (GO).

“Eu me sinto um pouco pai de Brasília, e acho muito bom ver aonde ela chegou. Ninguém acreditava. Fiz a pergunta em um momento de espontaneidade, sem me preparar para isso, e no fim das contas deu no que deu. O próprio Juscelino dizia que o Toniquinho [apelido do advogado] foi escolhido lá de cima para fazer o desafio e mudar a capital”, conta.

O comício ocorreu no dia 4 de abril de 1955 e, por causa de uma forte chuva que caiu na data, precisou ser improvisado no barracão de uma oficina mecânica. Juscelino usou como palanque a carroceria de um caminhão quebrado e afirmou durante o discurso que cumpriria a Constituição Federal na íntegra se fosse eleito.

“Com o coração saindo pela boca, levantei o dedo e perguntei para ele se ele então mudaria a capital. Aquela era uma ideia centenária, muito antiga mesmo, prevista na Constituição, mas que ninguém levou adiante. Ele se assustou. Estava todo esguio, de cabeça erguida, mas aí se abaixou um pouco e olhou para os colegas de palanque. Ficou emocionado, limpou os olhos e disse que era uma pergunta difícil, que era complicado para um político aceitar aquele desafio, mas que faria, que aquele compromisso haveria de ser cumprido”, lembra.

Trechos do livro escrito pelo presidente na época do exílio a que foi condenado durante o regime militar revelam o desconforto sentido por Juscelino na ocasião. As memórias, batizadas de “Por que construí Brasília”, fazem parte do acervo do Memorial JK, presidido pela neta dele, Anna Christina Kubitschek.

“A pergunta era embaraçosa. Já possuía o meu Programa de Metas e, em nenhuma parte dele, existia qualquer referência àquele problema. Respondi, contudo, como me cabia fazê-lo na ocasião: ‘Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição, e não vejo razão por que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo’. Essa afirmação provocou um delírio de aplausos”, escreveu.

A ideia de mudança do centro administrativo do país nasceu em 1789, mas desde então pouco havia sido feito pelo governo nesse sentido. As providências estavam restritas à Missão Cruls, que no final do século XIX demarcou a área da futura capital, e ao acréscimo no mapa de um retângulo que sinalizava a localização do futuro Distrito Federal.

Luziano Ferreira de Carvalho, prefeito de Jataí em 1955, Antônio Soares Neto e o então candidato à presidência da República, Juscelino Kubitschek (Foto: Antônio Soares Neto/Arquivo pessoal)
Luziano Ferreira de Carvalho, prefeito de Jataí em
1955, Antônio Soares Neto e o então candidato à
presidência da República, Juscelino Kubitschek
(Foto: Antônio Soares Neto/Arquivo pessoal)

Mais adiante no livro de memórias, JK volta a comentar a situação. “A afirmação, que fizera por ocasião do comício em Jataí, fora política até certo ponto. Até então, não havia me preocupado com o problema. Entretanto, a partir dali e no desdobramento da jornada eleitoral – quando percorri o país inteiro – deixei-me empolgada pela ideia. […] O grande desafio da nossa história estava ali: seria forçar-se o deslocamento do eixo do desenvolvimento nacional. Ao invés do litoral – que já havia alcançado certo nível de progresso – povoar-se o Planalto Central […], fazendo com que todo o interior fosse despertado, acordado, e abrisse os olhos para o futuro grandioso do país.”

Para Toniquinho, a transferência da capital para Brasília foi o maior feito de JK. “Alguém escreveu algo nesse sentido e eu concordo: é como se ele tivesse descoberto o Brasil pela segunda vez. Primeiro, os portugueses chegaram aqui e se fixaram no litoral. Mas então veio Juscelino, e levou tudo para o Centro-Oeste. Não havia nada, nada, antes dele.”

Relação com a cidade
Natural de Jataí, o advogado passou a morar em Goiânia em 1975. Ele afirma que a mudança para a capital goiana, em detrimento da vinda para Brasília, aconteceu por causa do trabalho e dos filhos, que já estavam perto de fazer faculdade.

“Gosto de Brasília. Estive prestes a morar aí, mas acontece que eu já tinha trabalho em Goiás. Era um emprego muito bom na época, e eu não quis deixá-lo”, lembra. “Foi por ele que eu acabei me aposentando.”

Toniquinho conta que viaja com frequência para a cidade “que é da família” e que sempre acompanha o que está acontecendo. “É uma verdade e é lamentável toda essa corrupção em Brasília. Na época do JK isso não existia. Respeitava-se o poder público, a coisa pública. Hoje ficou bem diferente, mas nem por isso deixo de amar a cidade.”

Raquel Morais – Do G1

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