Educação: especialista alerta para desafios da evasão escolar

O Brasil enfrenta um desafio histórico na educação: 64 milhões de pessoas com 15 anos ou mais não concluíram a educação básica. O dado foi tema de entrevista com Ana Kátia Ferreira de Assis, professora aposentada, ex-secretária municipal de Educação de Jataí e primeira presidente do Conselho Municipal de Educação, durante o PN7 em Pauta.
Com décadas de atuação na área educacional, Ana Kátia avaliou que o número revela uma dívida histórica do país com a educação e não pode ser analisado apenas como um problema atual.
Segundo ela, embora a legislação brasileira estabeleça direitos relacionados à matrícula, frequência e permanência dos estudantes, existe uma distância entre o que está previsto nas leis e a realidade vivenciada por parte da população.
Para a educadora, ficar fora da escola reduz as possibilidades de acesso ao mercado de trabalho, participação social e exercício da cidadania.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
FALTA DE PERSPECTIVA CONTRIBUI PARA EVASÃO
Ao analisar a realidade de Jataí e da região, Ana Kátia afirmou que também existem muitos jovens e adultos que não tiveram oportunidade de concluir a educação básica.
Na avaliação dela, um dos principais fatores relacionados ao abandono escolar é a falta de perspectiva de futuro.
A educadora contou que, em sua própria trajetória, a educação era apresentada pela família como um caminho para melhorar as condições de vida. Filha de uma família de trabalhadores, ela relatou que cresceu entendendo os estudos como uma possibilidade de ascensão social.
Ana Kátia também apontou fatores como vulnerabilidade social, gravidez na adolescência, criminalidade e a necessidade de trabalhar como situações que podem afastar jovens da escola.
Segundo ela, muitos estudantes precisam abandonar os estudos para contribuir com a renda familiar e garantir a própria sobrevivência.
EJA É CAMINHO PARA QUEM NÃO CONCLUIU OS ESTUDOS
Durante a entrevista, a educadora destacou a importância da Educação de Jovens e Adultos, a EJA, como alternativa para quem está fora da escola e deseja concluir a educação básica.
Ela, no entanto, avalia que o modelo precisa considerar as características específicas de quem procura esse tipo de ensino.
A maioria dos estudantes da EJA, segundo Ana Kátia, trabalha durante o dia e enfrenta dificuldades para frequentar as aulas no período noturno. Por isso, ela defende que as escolas desenvolvam uma proposta pedagógica adequada à realidade de jovens, adultos e idosos.
“Ela não pensa o jovem trabalhador, e ela também não pensa o adulto trabalhador que vai procurá-la”, afirmou.
A educadora também lembrou que existem pessoas com mais de 60 e 70 anos que retornam à escola para aprender a ler e escrever, após não terem tido essa oportunidade anteriormente.
ACESSO NÃO DEVE SER APENAS À MATRÍCULA
Para Ana Kátia, o desafio da educação não termina quando o estudante consegue uma vaga.
Ela defende políticas públicas que garantam três etapas: acesso, permanência e sucesso escolar.
Na avaliação da professora, ter matrícula não é suficiente se o aluno não consegue permanecer na escola ou concluir os estudos com qualidade.
A educadora também destacou a necessidade de investimentos contínuos. Segundo ela, a trajetória histórica das políticas educacionais brasileiras ajuda a explicar parte das dificuldades enfrentadas atualmente.
Para Ana Kátia, os problemas sociais que existem fora dos muros das escolas também precisam ser considerados pelas políticas públicas.
“Educação não existe sem financiamento”, afirmou durante a entrevista.
TRANSPORTE PODE FACILITAR ACESSO À EJA EM JATAÍ
Ao falar especificamente sobre Jataí, Ana Kátia mencionou a possibilidade de ampliação do acesso aos polos de EJA por meio de transporte para os estudantes.
Segundo ela, atualmente existem polos de atendimento na rede municipal e estadual, mas a distância pode dificultar a frequência de quem trabalha durante o dia.
A educadora afirmou ter recebido informações sobre uma possível iniciativa para disponibilizar transporte aos alunos, mas ressaltou que a população deve acompanhar os canais oficiais para obter informações sobre eventual implementação.
Ela também orientou quem não concluiu a educação básica a procurar uma instituição que ofereça EJA e realizar a matrícula.
DIPLOMA DA EJA TEM A MESMA VALIDADE
Um dos pontos destacados durante a entrevista foi a validade do certificado obtido por meio da EJA.
Ana Kátia explicou que o certificado possui a mesma validade do ensino regular e pode ser utilizado para acesso ao ensino superior, empregos e concursos públicos, conforme os requisitos de cada oportunidade.
A educadora ressaltou que o tempo de conclusão pode ser diferente porque o público da EJA possui experiências e trajetórias distintas dos estudantes que seguem o ensino regular na idade correspondente.
Ela também citou outras possibilidades de certificação e programas destinados a pessoas que não concluíram etapas da educação básica.
PRECONCEITO AINDA É UMA BARREIRA
Além das dificuldades econômicas e de acesso, Ana Kátia chamou atenção para o preconceito enfrentado por pessoas que retornam aos estudos depois de adultas.
Segundo ela, jovens que não conseguiram concluir a educação básica no período considerado regular podem ser alvo de piadas e comentários que acabam desestimulando a retomada dos estudos.
Para a educadora, combater esse tipo de discriminação é fundamental para incentivar a procura pela EJA.
Ela defende que o primeiro passo para quem deseja mudar essa realidade é reconhecer os motivos que levaram ao abandono escolar e voltar a estudar.
“Dar o primeiro passo é fazer a matrícula”, afirmou.
EDUCAÇÃO GANHA AINDA MAIS IMPORTÂNCIA COM A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Ana Kátia também relacionou a necessidade de formação escolar às transformações provocadas pela tecnologia e pela inteligência artificial.
Segundo ela, a sociedade vive uma era de grande circulação de informações, mas a capacidade de interpretar, analisar e verificar aquilo que é recebido tornou-se cada vez mais importante.
A educadora alertou para o risco de pessoas serem facilmente enganadas quando não possuem conhecimento suficiente para analisar informações e identificar conteúdos falsos.
Para ela, a educação não deve ser vista apenas como uma forma de conseguir emprego, mas também como instrumento para desenvolver autonomia e capacidade crítica.
“JOVENS, PERMANEÇAM NA ESCOLA. ADULTOS, RETORNEM”
Ao final da entrevista, Ana Kátia deixou uma mensagem direcionada a quem ainda não concluiu os estudos.
Ela citou a própria mãe como exemplo de que nunca é tarde para voltar à escola. Segundo o relato, sua mãe retomou os estudos depois de os filhos já estarem adultos e concluiu a formação enquanto incentivava outro filho a permanecer na escola.
A educadora reforçou que a educação pode não garantir, sozinha, a ascensão social esperada, mas considera muito mais difícil alcançar melhores oportunidades sem escolarização.
Share this content:






