Cacau avança sobre áreas degradadas e ganha força na Amazônia

Cacau avança sobre áreas degradadas e ganha força na Amazônia
O cultivo de cacau está avançando sobre áreas que já foram alteradas pela atividade humana na Amazônia, principalmente antigas pastagens. A expansão é especialmente significativa no Pará, maior produtor brasileiro, e ocorre com o uso de sistemas agroflorestais que combinam o cultivo do cacau com outras espécies.
Segundo dados da Produção Agrícola Municipal do IBGE, o Pará produziu 153.647 toneladas de cacau em 2025, em uma área de aproximadamente 170,6 mil hectares. O volume representa cerca de 48,9% de toda a produção brasileira, que chegou a 314.364 toneladas no mesmo ano.
A expansão sobre áreas já abertas é apontada como uma alternativa para aumentar a produção sem depender, predominantemente, da abertura de novas áreas de floresta. O tema ganhou força com novos investimentos públicos e privados na cadeia do cacau.
Estudo aponta recuperação do solo
Uma pesquisa publicada em 2026 na revista Agriculture, Ecosystems & Environment analisou dois sistemas agroflorestais comerciais com cacau instalados em áreas de pastagem degradada. Um deles tinha 12 anos e o outro, 25 anos de implantação.
Os pesquisadores compararam essas áreas com uma pastagem degradada e um fragmento de floresta nativa. Foram avaliados indicadores como matéria orgânica, estoque de carbono, porosidade, densidade e resistência à penetração do solo, além da presença de organismos da fauna do solo.
Os resultados indicaram maior quantidade de matéria orgânica, maior estoque de carbono e maior porosidade nos sistemas agroflorestais em comparação com a pastagem degradada.
Também foram observadas menor densidade e menor resistência à penetração do solo, principalmente nas camadas mais superficiais.
Na área com 25 anos de implantação, os pesquisadores encontraram ainda maior abundância e diversidade de organismos do solo. A área mais jovem, com 12 anos, também já apresentava sinais de melhoria na estrutura física e aumento do estoque de carbono.
Modelo de produção faz diferença
Apesar dos resultados, os pesquisadores fazem uma distinção importante: o estudo avaliou sistemas agroflorestais diversificados com cacau, e não simplesmente qualquer plantação da cultura instalada em uma antiga pastagem.
Por isso, os resultados não permitem afirmar que a substituição de uma pastagem por uma monocultura de cacau produziria os mesmos efeitos sobre o solo.
A composição do sistema, a presença de diferentes espécies, a cobertura do solo e o manejo adotado são fatores que podem influenciar os resultados ambientais.
Essa diferença também aparece no debate sobre a expansão da cacauicultura na Amazônia. A utilização de áreas já abertas pode reduzir a pressão pela abertura de novas áreas, mas a recuperação das condições do solo é um processo gradual e depende de manejo adequado.
Governo amplia investimentos
O uso de áreas já alteradas também está previsto em estratégias nacionais para a cadeia do cacau.
O Plano Inova Cacau 2030, coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária por meio da Ceplac, prevê o estímulo à recuperação produtiva de áreas alteradas utilizando sistemas sustentáveis de produção de cacau.
Em 2026, foi lançado o projeto Cacau Brasil Agrofloresta, com atuação prevista no Pará e na Bahia. O programa tem duração estimada de quatro anos e prevê investimentos de aproximadamente US$ 31 milhões, com recursos do Fundo Verde para o Clima e participação da Ceplac.
A meta anunciada é implantar mais de 12 mil hectares de sistemas agroflorestais nos dois estados. Esses números são metas do projeto e não representam áreas já implantadas.
Empresas privadas também passaram a investir nesse modelo, associando produção de cacau, recuperação de áreas alteradas e, em alguns projetos, geração de créditos de carbono.
Expansão não começou agora
Embora os investimentos recentes tenham aumentado a visibilidade do tema, o uso do cacau em áreas anteriormente ocupadas por outras atividades não é uma estratégia criada em 2026.
O que mudou foi a escala dos investimentos e o interesse econômico pela cultura, em um momento de valorização do cacau e de busca por alternativas para aumentar a produção sem ampliar a pressão sobre a floresta.
Com o Pará respondendo por quase metade do cacau produzido no Brasil, a expansão da cultura ganha importância para o agronegócio e para o debate ambiental.
O desafio, segundo as evidências disponíveis, é fazer com que o crescimento ocorra principalmente em áreas já alteradas e com sistemas de produção capazes de combinar produtividade, manejo adequado e recuperação gradual das funções do solo, sem transformar a expansão do cacau em uma nova frente de pressão sobre a floresta.








