Abuso sexual facilitado pela internet atinge 19% de crianças e adolescentes no Brasil

Abuso sexual facilitado pela internet atinge 19% de crianças e adolescentes no Brasil

Um em cada cinco crianças e adolescentes no Brasil sofreu exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia entre 2024 e 2025. O dado corresponde a 19% dos entrevistados e aparece no estudo “Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia”. O relatório foi divulgado nesta quarta-feira (4) pelo Unicef Innocenti, em parceria com a Ecpat International e a Interpol, com financiamento da Safe Online.

A pesquisa entrevistou 1.029 crianças e adolescentes de 12 a 17 anos. Também participaram 1.029 pais ou responsáveis. As equipes realizaram visitas domiciliares entre novembro de 2024 e março de 2025. As perguntas consideraram experiências vividas nos 12 meses anteriores.

A exposição a conteúdo sexual impróprio foi a forma mais comum de violência. Esse tipo de situação atingiu 14% dos entrevistados. Segundo o levantamento, vítimas desse tipo de abuso têm cinco vezes mais chance de apresentar automutilação ou pensamentos suicidas.

O relatório analisa casos em que criminosos usaram tecnologias digitais para aliciar, extorquir, produzir ou compartilhar material de exploração sexual infantil. Alguns episódios aconteceram apenas no ambiente online. Em outros casos, o contato começou presencialmente e depois migrou para o ambiente digital.

Agressores conhecidos e redes sociais

Quase metade dos casos envolve pessoas conhecidas da vítima. O estudo aponta 49% das ocorrências nessa situação. Em 26% dos casos, o agressor era desconhecido. Outros 25% das vítimas preferiram não identificar o responsável.

As crianças e adolescentes relataram ter visto conteúdo sexual principalmente em redes sociais e anúncios online, com 67% das ocorrências. Além disso, 33% disseram ter recebido esse tipo de material por mensagens diretas.

Entre as plataformas citadas, o Instagram aparece em 59% dos casos. O WhatsApp surge em 51% das situações relacionadas ao abuso.

Silêncio das vítimas

O estudo mostra que 34% das crianças e adolescentes não contaram a ninguém sobre o ocorrido. Quando decidiram falar, 22% procuraram amigos.

A falta de informação sobre como buscar ajuda também pesa. Cerca de 22% disseram não saber a quem recorrer.

Entre os motivos para o silêncio, 21% apontaram constrangimento. Outros 16% relataram vergonha ou medo de não serem acreditados. O receio de que outras pessoas descobrissem o caso apareceu em 7% das respostas.

Além disso, 3% disseram sentir culpa. Outros 12% afirmaram que não consideraram o episódio grave o suficiente para denunciar.

Nos casos em que a vítima conhecia o agressor, 52% tiveram o primeiro contato pela internet. A escola aparece em 27% das situações. O contato ocorreu na própria casa em 11% dos casos e em locais esportivos em 2%.

Uso de inteligência artificial

A pesquisa também identificou episódios relacionados ao uso de novas tecnologias. Em 2025, 3% das crianças e adolescentes relataram que alguém criou imagens ou vídeos de conteúdo sexual usando inteligência artificial com a aparência delas.

Os pesquisadores não identificaram diferenças relevantes entre regiões do país ou nível de escolaridade das vítimas e de seus responsáveis.

No entanto, o estudo indica que alguns agressores exploram dificuldades econômicas das famílias. Cerca de 5% das crianças disseram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes em troca de conteúdo sexual.

Além disso, 3% relataram propostas para encontros presenciais.

Jovens dominam ferramentas digitais

A pesquisa também analisou o comportamento dos jovens na internet. 93% afirmaram saber denunciar conteúdo nocivo nas plataformas digitais.

Outro dado mostra que 82% acreditam saber mais sobre internet do que seus pais ou responsáveis.

Entre os entrevistados, 81% disseram saber editar imagens, vídeos ou músicas. Já 79% afirmaram conhecer as configurações de privacidade das plataformas digitais.

Impactos na saúde mental

O estudo aponta impactos importantes na saúde mental das vítimas. Jovens entre 16 e 24 anos relataram experiências de violência ocorridas quando eram menores de idade.

Entre as consequências mais citadas aparecem ansiedade, sensação de culpa e estado constante de alerta.

Uma das entrevistadas contou que, aos 16 anos, recebeu diversas mensagens e imagens de conteúdo sexual. Segundo ela, o episódio provocou nervosismo e choro, além de relembrar experiências traumáticas anteriores.

Outra jovem relatou que recebeu conteúdo sexual pelo Facebook quando tinha 12 anos. Ela disse que se sentiu assustada, angustiada e violada, sem saber como reagir à situação.

Recomendações do Unicef

O Unicef apresentou recomendações para governos, sistema de Justiça, famílias, escolas e empresas de tecnologia.

A organização pede que plataformas digitais ampliem a cooperação para prevenir e responder a casos de violência online. Também recomenda a criação de mecanismos de proteção mais eficazes nas plataformas.

A especialista em proteção infantil do Unicef, Luiza Teixeira, afirma que o Brasil possui leis avançadas na proteção de crianças e adolescentes. No entanto, ela ressalta que o principal desafio está na aplicação dessas normas na prática.

Segundo a especialista, a sociedade não pode banalizar a violência digital. Ela também alerta para a necessidade de evitar a culpabilização das vítimas.

Luiza Teixeira destaca que crianças e adolescentes continuam sendo vítimas, mesmo quando iniciam contato ou são pressionados a enviar imagens. Para ela, esses jovens precisam de acolhimento e proteção.

A especialista também defende mais diálogo entre famílias e jovens sobre segurança digital. Ela lembra que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) reconhece crianças e adolescentes como sujeitos de direitos.

Desafios nas investigações

Autoridades também enfrentam dificuldades para investigar esse tipo de crime. A coordenadora da unidade de dados e tecnologia da Interpol para crimes contra crianças, Miriam Longo, afirma que o grande volume de casos representa um desafio.

Segundo ela, as polícias possuem recursos limitados. Além disso, muitos agentes lidam diariamente com conteúdos extremamente sensíveis durante as investigações.

A Interpol desenvolve ferramentas baseadas em inteligência artificial para acelerar análises e identificar materiais ilegais.

Miriam Longo afirma ainda que o Brasil se tornou referência na América Latina em boas práticas de investigação e tecnologia no combate a esses crimes, inclusive exportando soluções para outros países.

Por Gessica Vieira
Foto: Reprodução
Jornalismo Portal Pn7

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Gessica Vieira

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