Cadeia do leite muda de foco e coloca qualidade no centro das negociações

Por muitos anos, a produção de leite foi avaliada principalmente pela quantidade entregue às indústrias. Quanto maior o volume captado, maior a capacidade de abastecimento e de utilização das estruturas de processamento. Esse modelo, porém, vem passando por uma transformação.
A qualidade do leite ganhou espaço nas decisões de produtores, cooperativas e laticínios. Características como teor de gordura e proteína, contagem bacteriana e células somáticas passaram a ter maior importância, principalmente porque interferem diretamente no rendimento industrial e na fabricação de derivados.
O movimento acompanha uma evolução das regras brasileiras para o setor. Desde a Instrução Normativa 51, de 2002, até as normas estabelecidas pelas INs 76 e 77, de 2018, os critérios de avaliação do leite cru passaram a incorporar parâmetros mais rigorosos de qualidade.
Esse processo também fortaleceu os sistemas de pagamento pela qualidade, criando mecanismos para diferenciar a remuneração conforme as características da matéria-prima entregue pelo produtor.
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Qualidade ganha espaço entre as indústrias
Uma pesquisa de campo realizada com representantes de 33 laticínios e cooperativas, responsáveis por aproximadamente um quarto do leite industrializado no país, mostra essa mudança de percepção.
Segundo o levantamento citado pelo Cepea, 75,8% dos entrevistados concordaram, em algum grau, que a qualidade é mais importante do que a escala diária de produção na aquisição do leite cru.
O resultado indica uma mudança na estratégia de captação. Para a indústria, não basta apenas receber mais litros. A composição e as condições do leite também influenciam o aproveitamento da matéria-prima e o resultado econômico da operação.
Isso não significa, entretanto, que o volume tenha perdido importância.
Volume continua sendo estratégico
As indústrias precisam de quantidade suficiente de leite para manter suas plantas funcionando e diluir custos fixos. Levantamentos setoriais apontam que as maiores empresas do país trabalharam, na última década, com utilização média de 65,5% da capacidade instalada.
Na prática, isso representa uma ociosidade média superior a 30%. Ao mesmo tempo, o potencial produtivo doméstico cresceu apenas 1,4% no período analisado.
Nesse cenário, garantir matéria-prima continua sendo fundamental para a sustentabilidade das fábricas.
A diferença é que o setor começa a enxergar volume e qualidade como fatores que cumprem funções diferentes. Enquanto a quantidade ajuda a garantir escala industrial, a qualidade pode elevar o rendimento e agregar valor ao produto.
Mercado pode avançar para pagamento por sólidos
Outra tendência apontada na análise é a possibilidade de o mercado brasileiro caminhar cada vez mais para referências baseadas na quantidade de sólidos do leite, em vez de considerar apenas o preço por litro.
O modelo já é utilizado em outros mercados e leva em conta componentes como gordura e proteína, que possuem influência direta sobre o rendimento na indústria.
Essa mudança pode alterar a forma como produtores e empresas avaliam eficiência, produtividade e remuneração.
Qualidade também entra na discussão sobre os indicadores
O debate sobre qualidade não se limita ao leite produzido nas propriedades.
O próprio sistema utilizado para acompanhar os preços pagos ao produtor também passa por discussões sobre representatividade, confiabilidade e rastreabilidade das informações.
Durante reunião anual da pesquisa de preço do leite ao produtor, realizada em agosto em Piracicaba, representantes discutiram mecanismos para aumentar a segurança dos dados utilizados na construção do indicador.
Entre as propostas estão auditorias posteriores sobre as informações enviadas e o uso de sistemas digitais com maior capacidade de rastreamento e comprovação dos dados.
A preocupação é garantir que um indicador de mercado não seja apenas amplo em sua amostra, mas também confiável na qualidade das informações utilizadas.
O desafio é unir escala e qualidade
A discussão mostra que a cadeia leiteira está diante de uma mudança de paradigma.
O volume continua essencial para manter a escala das indústrias. A qualidade, por outro lado, ganha importância para melhorar o rendimento, agregar valor e fortalecer a relação comercial com o produtor.
Por isso, a tendência não aponta para uma escolha entre produzir mais ou produzir melhor.
O caminho mais estratégico para a cadeia do leite é buscar mais volume acompanhado de qualidade, com informações confiáveis e critérios capazes de refletir o verdadeiro valor da matéria-prima.
Para o produtor, esse cenário reforça a importância de investir não apenas no aumento da produção, mas também em manejo, sanidade, alimentação e controle de qualidade.
Para as indústrias, significa avançar em modelos de remuneração e captação capazes de reconhecer diferentes níveis de eficiência.
A transformação, portanto, não está apenas no litro de leite que chega à indústria. Ela também passa pela maneira como esse produto é avaliado, remunerado e utilizado ao longo de toda a cadeia.
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