Resíduo da suinocultura pode reduzir dependência de fertilizantes no Brasil
Um resíduo que hoje representa desafio ambiental pode se transformar em alternativa estratégica para a agricultura brasileira. Pesquisadores da Embrapa Agrobiologia estudam o uso da estruvita, um mineral obtido a partir da recuperação de nutrientes presentes nos dejetos de suínos, como fertilizante para solos tropicais.
O tema ganha relevância diante da forte dependência externa do país. Atualmente, o Brasil importa cerca de 75% dos fertilizantes utilizados nas lavouras, o que expõe o setor a oscilações de preços e riscos no mercado internacional.
Entre os nutrientes essenciais para o desenvolvimento das plantas, o fósforo ocupa posição central, ficando atrás apenas do nitrogênio. Sem ele, culturas como soja e trigo não conseguem atingir níveis adequados de produtividade. Diferente do nitrogênio, que pode ser obtido da atmosfera, o fósforo depende de reservas minerais finitas, o que limita sua disponibilidade.
Nesse cenário, a estruvita surge como alternativa viável. O mineral é produzido a partir de um processo químico que transforma resíduos líquidos da suinocultura em cristais ricos em fósforo, nitrogênio e magnésio. A tecnologia já é utilizada em mais de 80 unidades no mundo.
No Brasil, os estudos buscam adaptar o uso da substância às condições dos solos tropicais. Em testes experimentais, a aplicação da estruvita, combinada com fertilizantes convencionais, conseguiu suprir até 50% da demanda de fósforo na cultura da soja.
Outro fator observado é a eficiência no aproveitamento do nutriente. Em solos tropicais, parte do fósforo aplicado pode ficar retida antes de ser absorvida pelas plantas. A estruvita, por liberar os nutrientes de forma lenta e gradual, tende a acompanhar o ciclo da cultura, reduzindo perdas e aumentando a eficiência agronômica.
Os resultados ainda são considerados preliminares, mas indicam potencial relevante tanto do ponto de vista produtivo quanto ambiental. Estimativas apontam que o Brasil pode produzir até 340 mil toneladas de estruvita por ano, reaproveitando resíduos que atualmente exigem manejo adequado.
Segundo o pesquisador Caio Inácio, da Embrapa, a proposta vai além da substituição de insumos. A iniciativa representa o desenvolvimento de uma nova rota tecnológica para o campo brasileiro, alinhada à sustentabilidade, inovação e maior autonomia produtiva.
A proposta acompanha uma tendência global de reaproveitamento de resíduos na agricultura, com foco na economia circular. No contexto brasileiro, a estratégia pode contribuir para reduzir a dependência externa e ampliar a segurança no fornecimento de fertilizantes.
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