Anvisa aprova medicamento inédito que pode adiar o diabetes tipo 1 por até dois anos

Anvisa aprova medicamento inédito que pode adiar o diabetes tipo 1 por até dois anos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou um medicamento inédito que pode mudar o tratamento do Diabetes Tipo 1. O remédio, chamado Tzield, utiliza o princípio ativo teplizumabe e é produzido pela Sanofi.

O tratamento tem indicação para adultos e crianças a partir de 8 anos que se encontram no estágio 2 da doença, fase em que ainda não existem sintomas clínicos aparentes. Dessa forma, o medicamento pode retardar a progressão para o diabetes tipo 1 clínico, momento em que os sintomas surgem e a terapia diária com insulina passa a ser necessária.

Além disso, especialistas destacam que a aprovação representa um avanço importante. Isso ocorre porque o medicamento atua diretamente na preservação das células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Assim, o tratamento reduz o ritmo de destruição dessas células e adia o avanço da doença.

O tratamento ocorre por infusão intravenosa, administrada uma vez ao dia durante 14 dias consecutivos.

Segundo a endocrinologista Melanie Rodacki, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o novo medicamento pode trazer benefícios importantes para pacientes e familiares.

“Com a possibilidade de atrasar o desenvolvimento do diabetes tipo 1 clínico, podemos oferecer às famílias um tempo para preparação, educação e adaptação a essa condição. Dessa forma, evitamos quadros graves e traumáticos no diagnóstico, o que pode ter impacto importante na saúde mental e no estresse emocional das famílias”, afirmou a especialista.

Ela também destacou que o medicamento representa uma mudança importante no tratamento da doença. “Tzield é o primeiro imunomodulador aprovado para diabetes tipo 1 e isso representa uma mudança de paradigma. Agora podemos modificar a história natural da doença e não apenas repor insulina”, explicou.

Rotina desafiadora para quem vive com a doença

Pessoas com Diabetes Tipo 1 enfrentam desafios constantes no controle da glicose. Estima-se que mais de 40 fatores influenciem os níveis de açúcar no sangue ao longo do dia.

Por causa disso, pacientes precisam tomar cerca de 180 decisões conscientes ou inconscientes diariamente relacionadas ao manejo da doença. Entre elas estão o controle da alimentação, o monitoramento da glicose, a prática de atividades físicas e o uso correto de insulina.

Além do impacto físico, esse processo também provoca forte carga emocional e prática, afetando a qualidade de vida de pacientes e familiares.

Doença autoimune e progressiva

O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune, progressiva e crônica. Nesse quadro, o próprio sistema imunológico ataca e destrói as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Como resultado, o organismo passa a apresentar deficiência desse hormônio essencial.

Ainda hoje, muitos diagnósticos ocorrem de forma tardia. Em diversos casos, médicos identificam a doença apenas após um episódio de Cetoacidose Diabética, uma complicação grave que exige hospitalização de emergência.

No entanto, especialistas explicam que exames simples de sangue já permitem identificar a doença antes do aparecimento dos sintomas clínicos. Esses testes detectam autoanticorpos específicos e alterações nos níveis de glicose.

Estágios do diabetes tipo 1

A progressão do diabetes tipo 1 ocorre em quatro estágios. Nos estágios 1 e 2, considerados pré-sintomáticos, exames laboratoriais já conseguem identificar autoanticorpos e alterações metabólicas.

Já o estágio 3 apresenta hiperglicemia de início recente, que pode ou não vir acompanhada de sintomas como sede excessiva, perda de peso, fadiga e visão turva. Por fim, o estágio 4 corresponde ao diabetes tipo 1 de longa duração.

De acordo com Rodacki, a presença de dois ou mais autoanticorpos indica que o processo de destruição das células beta já começou. “Quando detectamos esses marcadores, sabemos que a progressão para o estágio clínico é praticamente certa. Portanto, a detecção precoce permite intervir antes de uma emergência”, afirmou.

Resultados do estudo clínico

Pesquisadores basearam a aprovação do medicamento em um estudo clínico que apresentou resultados significativos.

Os dados demonstraram que o tratamento com Tzield atrasou a progressão para o diabetes tipo 1 clínico por uma mediana de dois anos em comparação com pacientes que receberam placebo. Além disso, o estudo indicou redução de 59% no risco de os pacientes passarem a necessitar do uso de insulina nesse período.

Possíveis efeitos colaterais e cuidados

Assim como outros medicamentos, o tratamento pode provocar efeitos adversos. Os mais comuns incluem redução dos níveis de determinados glóbulos brancos, erupções cutâneas e dor de cabeça.

Além disso, o uso exige acompanhamento médico e algumas precauções. Profissionais de saúde recomendam pré-medicação e monitoramento de possíveis sintomas da síndrome de liberação de citocinas.

Também existe risco de infecções graves e reações de hipersensibilidade. Por esse motivo, médicos orientam que pacientes mantenham a vacinação adequada para a idade antes de iniciar o tratamento.

Durante o uso do medicamento, especialistas também recomendam evitar a aplicação simultânea de vacinas vivas, inativadas ou de mRNA.

Com essa aprovação, especialistas esperam ampliar as possibilidades de diagnóstico precoce e intervenção antecipada no diabetes tipo 1. Dessa maneira, o tratamento pode oferecer mais tempo de preparação e adaptação para pacientes e familiares diante da doença.

Por Gessica Vieira
Foto: Reprodução
Jornalismo Portal Pn7

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Gessica Vieira

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