Quebra-pedra deve se tornar o primeiro fitoterápico do SUS contra cálculos renais
A formação de cálculos renais, popularmente conhecida como pedra nos rins, representa uma condição frequente e dolorosa que leva milhares de brasileiros a pronto-socorros, internações e procedimentos de alta complexidade todos os anos. Além disso, o problema pressiona filas e eleva os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Diante desse cenário, o Brasil avança no desenvolvimento do primeiro fitoterápico à base do quebra-pedra. A planta Phyllanthus niruri, usada há décadas na medicina popular, deverá integrar a lista de medicamentos distribuídos pelo SUS. Atualmente, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) conduzem o desenvolvimento do produto.
Avanço científico e proposta do medicamento
O objetivo é oferecer uma alternativa padronizada, segura e com potencial de auxiliar na prevenção e no manejo dos cálculos renais, especialmente em pacientes que enfrentam o problema de forma recorrente. Assim, o novo medicamento pode ampliar as opções terapêuticas disponíveis na rede pública.
Segundo o urologista Alex Meller, do Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, a ação do quebra-pedra vai além da crença popular de que ele “quebra” pedras já formadas. Na prática, a planta atua principalmente na prevenção. “Ela ajuda a evitar a formação do cálculo ao interferir na cristalização e na agregação dos cristais que dão origem às pedras”, explica.
Além disso, o especialista afirma que o fitoterápico pode modificar a estrutura do cálculo, dificultando que os cristais se unam e se fixem nos rins. Dessa forma, o efeito tende a reduzir tanto o surgimento de novas pedras quanto a recorrência em pacientes que já enfrentaram o problema.
Benefícios potenciais para o SUS
Há ainda indícios de que o quebra-pedra auxilie na eliminação de fragmentos após tratamentos como a litotripsia, procedimento que destrói o cálculo renal com ondas de choque. “Trata-se de um problema grave para a saúde pública, com filas longas e tratamentos complexos, que exigem tecnologia e alto investimento”, afirma Meller.
Por isso, ao reduzir a formação e a recorrência dos cálculos, o novo fitoterápico pode diminuir internações e procedimentos, ajudando a desafogar o sistema público. Para o especialista, o medicamento pode ser especialmente útil para pacientes que formam cálculos de maneira crônica e que hoje contam basicamente com mudanças de hábitos, ajustes na dieta e algumas medicações para controle metabólico.
Do uso tradicional à padronização farmacêutica
A nutricionista Thaís Barca, especialista em fitoterapia, explica que populações tradicionais, inclusive indígenas, utilizam o quebra-pedra há séculos, principalmente para problemas urinários. A planta contém compostos como alcaloides, flavonoides — entre eles quercetina e rutina —, lignanas e taninos, associados a ações diuréticas, anti-inflamatórias, antioxidantes e relaxantes da musculatura lisa.
Esses compostos atuam em diferentes frentes. Primeiro, dificultam a agregação dos cristais de oxalato de cálcio. Em seguida, podem modificar a estrutura dessas partículas, tornando-as menos aderentes ao trato urinário. Além disso, aumentam a produção de urina, o que facilita a eliminação de microcristais e pequenos fragmentos.
No entanto, Thaís reforça que não há evidência de que a planta consiga quebrar pedras grandes já formadas. “O efeito aparece principalmente em cálculos pequenos ou na prevenção. Portanto, o fitoterápico não substitui o tratamento médico”, destaca.
Segurança, limites e cuidados no uso
A nutricionista também chama atenção para uma diferença essencial: o uso caseiro da planta não equivale ao medicamento padronizado. Chás, extratos e preparações artesanais variam em concentração, qualidade e identificação correta da planta. Como resultado, aumentam os riscos de ineficácia ou efeitos adversos.
Por outro lado, o medicamento desenvolvido passa por controle rigoroso de matéria-prima, padronização dos compostos ativos, testes de estabilidade e avaliação farmacêutica antes do registro. “Assim, garantimos previsibilidade de dose, efeito e segurança, além de reduzir riscos de contaminação ou uso de plantas incorretas”, explica.
Apesar dos resultados promissores, Thaís ressalta que ainda faltam grandes ensaios clínicos randomizados e controlados para confirmar, de forma definitiva, o grau de benefício em humanos. “Os dados são encorajadores, mas ainda preliminares. Ainda assim, esse é um caminho semelhante ao de muitos fitoterápicos atuais, que começaram com o uso popular e depois receberam validação científica”, afirma.
Embora o quebra-pedra seja considerado relativamente seguro, especialistas alertam que “natural” não significa inofensivo. Em doses elevadas, pode causar efeitos gastrointestinais, como diarreia e vômitos, além de hipotensão em pessoas mais sensíveis. Além disso, gestantes, lactantes e crianças devem evitar o uso, devido à falta de estudos de segurança nessas populações.
Também há risco de interações medicamentosas, especialmente com diuréticos e remédios para diabetes, já que a planta pode potencializar esses efeitos. “Por isso, nunca se deve usar fitoterápicos por conta própria. A orientação de um médico ou nutricionista especializado em fitoterapia é fundamental”, conclui Thaís.
Por Gessica Vieira
Foto: Reprodução
Jornalismo Portal Pn7
Share this content:

