Psiquiatras explicam de onde vêm as vozes que conversam na sua cabeça
Quem nunca ouviu uma voz no fundo da própria cabeça comentando o dia, ensaiando conversas ou fazendo julgamentos silenciosos? Embora muitas pessoas se surpreendam com esse fenômeno, os especialistas garantem que ele é absolutamente comum. Trata-se do chamado diálogo interno e, longe de indicar loucura, é uma experiência universal e parte essencial do funcionamento cerebral.
De modo geral, o diálogo interno é o mecanismo que utilizamos para pensar em palavras, planejar ações e dar sentido às experiências do cotidiano. Além disso, ele nos ajuda a organizar ideias e a refletir antes de agir. A ciência mostra que essa voz não surge por acaso; ao contrário, ela se desenvolve ainda na infância.
Inicialmente, as crianças verbalizam seus pensamentos em voz alta para orientar suas próprias ações. Com o passar do tempo, entretanto, esse processo se internaliza. Assim, aquilo que antes era falado passa a ocorrer apenas na mente, transformando-se em uma ferramenta fundamental para o autocontrole e para a construção da identidade.
De onde surge essa voz?
Fisicamente, essa conversa interna tem origem em uma região localizada atrás da testa, conhecida como área frontopolar, parte do córtex pré-frontal. Essa estrutura cerebral, por sua vez, é responsável por integrar informações do passado, do presente e até projeções sobre o futuro. Além disso, ela se conecta com áreas ligadas à linguagem e às emoções.
Quando o indivíduo está emocionalmente equilibrado, esse mecanismo tende a funcionar de maneira positiva. Dessa forma, o diálogo interno contribui para reflexões produtivas e planejamento consciente. Por isso, os especialistas afirmam que essa voz é saudável e necessária.
“A principal função da fala interna é organizar pensamentos, regular emoções, avaliar situações, antecipar consequências e construir a percepção de si mesmo. Portanto, é uma ferramenta mental essencial para o autocontrole, reflexão e identidade pessoal”, explica a psiquiatra Lidiane Silva, membro do Conselho Regional de Psiquiatria do Rio de Janeiro.
Principais benefícios da voz interna
Além de organizar pensamentos, o diálogo interno oferece diversas vantagens cognitivas. Entre os principais benefícios, destacam-se:
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Auxílio no processamento de informações complexas e na priorização de tarefas;
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Análise dos prós e contras antes de tomar decisões;
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Manutenção do foco e melhora da memória;
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Busca por soluções de forma mais estruturada e metódica.
Assim, quando equilibrada, essa voz interna funciona como um guia mental eficiente.
Fatores que podem modificar a voz interna
Apesar de ser naturalmente saudável, o diálogo interno pode sofrer influências externas e emocionais. Por exemplo, experiências vividas na infância — especialmente em ambientes emocionalmente inseguros — costumam moldar uma voz interna mais crítica e punitiva. Nesse caso, o pensamento passa a cobrar excessivamente e a julgar de maneira constante.
Além disso, o estresse prolongado também exerce impacto significativo sobre o cérebro. Com o tempo, a sobrecarga emocional pode afetar a região frontopolar, reduzindo sua capacidade organizacional. Como consequência, a voz interna tende a se tornar acelerada, repetitiva e pessimista.
Transtornos relacionados com a voz interna
Em alguns casos, o diálogo interno pode assumir um padrão de ruminação mental. Ou seja, a pessoa passa a pensar repetidamente sobre os mesmos problemas, sem conseguir chegar a uma solução. Esse padrão, por sua vez, está frequentemente associado à Depressão, aos transtornos de ansiedade, ao Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e ao Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
“Em todos esses casos, a região frontopolar fica excessivamente ativa, tentando prever, controlar ou evitar dor. No entanto, acaba mantendo o sofrimento aceso. A mente tenta proteger; entretanto, termina aprisionando”, ressalta o psiquiatra Adiel Carneiro Rios, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
Quando devo me preocupar?
De modo geral, a voz interna é positiva. Contudo, é preciso atenção quando o diálogo se torna excessivamente crítico, repetitivo e invasivo. Frases constantes de menosprezo, previsões catastróficas e ciclos intermináveis de culpa e preocupação são sinais de alerta.
Nessas situações, recomenda-se buscar apoio profissional. A psicoterapia, por exemplo, ajuda a identificar a origem desses pensamentos e a modificar padrões de autocrítica. Em alguns casos, além disso, a medicação pode ser indicada para reduzir o chamado “barulho” mental e reorganizar o funcionamento cerebral — sempre com acompanhamento médico.
Portanto, o objetivo do tratamento não é silenciar a voz interna, mas transformá-la novamente em aliada. Afinal, quando equilibrado, o diálogo interno é uma ferramenta essencial para o bem-estar emocional e para a construção da própria identidade.
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