Pró-labore na fazenda: cada um tira o que precisa ou cada um tem um valor definido?

Existe uma cena que se repete em quase toda fazenda familiar que eu atendo. O pai faz um pix para pagar o plano de saúde. O filho abastece a caminhonete e o carro da esposa no posto da fazenda. A filha usa o cartão da fazenda para comprar material escolar das crianças e pagar o salão. Ninguém está agindo de má-fé, ninguém está desviando nada. Cada um pega o que precisa, quando precisa, porque sempre foi assim e porque a fazenda é da família.
O problema aparece na hora de fechar a safra. A conta não bate, o lucro parece menor do que deveria, e ninguém consegue apontar exatamente onde o dinheiro foi. Não foi na lavoura, não foi na máquina, não foi no arrendamento. Foi na retirada — só que ela nunca foi tratada como um número, e sim como um hábito.
Retirada sem regra vira custo invisível
Quando a retirada acontece conforme a necessidade, ela deixa de ser uma linha e vira um vazamento espalhado por todo o caixa. Um pedaço aparece como despesa de combustível, outro como “diversos”, outro como adiantamento que nunca foi acertado. No fim, o custo existe, pesa e consome margem, mas não está visível em lugar nenhum.
É por isso que insisto tanto nesse assunto. Não se trata de controlar a vida de ninguém nem de dizer quanto a família pode gastar. Trata-se de enxergar. Um custo que você não mede é um custo que você não consegue reduzir, não consegue negociar e não consegue explicar para o banco quando ele pede o fluxo de caixa da propriedade.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
O que é pró-labore, na prática
Pró-labore é a remuneração de quem trabalha na fazenda. É o pagamento pelo trabalho — não pelo capital investido, não pela propriedade da terra. Quem administra, quem toca a lavoura, quem cuida do escritório: essas pessoas prestam um serviço à empresa rural e devem ser remuneradas por isso, com valor definido, periodicidade definida e registro financeiro.
E aqui está a confusão mais comum que encontro: pró-labore não é lucro. Lucro é o que sobra depois que todos os custos — inclusive o pró-labore — foram pagos, e ele é distribuído no fechamento da safra, quando existe resultado apurado. São dois eventos diferentes, em dois momentos diferentes. Misturar os dois é a maneira mais rápida de descapitalizar uma fazenda que aparentemente estava indo bem.
Um exemplo com números
Vamos supor uma família com três sócios ativos na propriedade, cada um com pró-labore mensal definido em R$ 20.000. São R$ 60.000 por mês, ou R$ 720.000 no ano.
Se essa fazenda planta 500 hectares de soja, o pró-labore representa R$ 1.440 por hectare (R$ 720.000 ÷ 500 ha). Com a soja a R$ 120 a saca, isso equivale a 12 sacas por hectare (R$ 1.440 ÷ R$ 120). Numa lavoura de 60 sacas por hectare, são 20% da produção destinados exclusivamente a sustentar as famílias.
Repare que o valor não mudou nada por estar organizado — o dinheiro sai do mesmo jeito. O que mudou é que agora ele tem tamanho. Você sabe que precisa de 12 sacas por hectare só para a retirada, e pode colocar esse número dentro do custo de produção, dentro do ponto de equilíbrio e dentro da decisão de comercialização. Sem isso, o produtor calcula um custo de equilíbrio de 45 sacas, vende achando que está com folga, e descobre em março que faltou dinheiro.
Como definir o valor
Não existe fórmula pronta, mas existe um caminho que funciona:
Primeiro, levante o custo de vida real de cada família. Moradia, saúde, escola, alimentação, combustível pessoal, lazer. Sem estimativa por cima — três meses de anotação já mostram a realidade.
Segundo, teste a capacidade de pagamento da fazenda. O pró-labore precisa caber no fluxo de caixa mensal, inclusive nos meses sem receita. Numa fazenda de grãos, a receita entra concentrada; a retirada sai todo mês. Esse descasamento precisa estar previsto.
Terceiro, fixe o valor e coloque no orçamento. Ele entra no DRE gerencial como despesa administrativa, todo mês, pelo regime de competência. Assim ele aparece no custo, aparece no resultado e aparece na hora de calcular a margem.
Quarto, separe as contas. Conta da pessoa física para as despesas da família, conta da fazenda para as despesas da fazenda. Cartão da empresa não paga supermercado. Essa é a mudança mais simples e a que mais dá trabalho no começo.
O acordo é entre pessoas, não entre planilhas
O ponto mais delicado não é técnico, é familiar. Definir pró-labore significa admitir que os sócios podem ter necessidades diferentes, contribuições diferentes e expectativas diferentes. Essa conversa costuma ser adiada por anos — e o preço do adiamento é justamente aquele fechamento de safra em que ninguém entende para onde foi o dinheiro.
Quando cada um sabe exatamente quanto pode retirar, a fazenda para de brigar com o caixa e a família para de brigar com a fazenda. É gestão, mas também é convivência.
Por Laura Assis
Consultora em gestão financeira de fazendas
@gestaodescomplicada3 · (64) 9 9211-8385
Share this content:







