Pesquisadores criam IA capaz de detectar fake news sem precisar conhecer notícias verdadeiras

Pesquisadores criam IA capaz de detectar fake news sem precisar conhecer notícias verdadeiras

Pesquisadores criaram um modelo de inteligência artificial capaz de identificar fake news mesmo sem ter acesso a informações verdadeiras. Dessa forma, a técnica representa um avanço no combate à desinformação em ambientes digitais, onde mapear conteúdos confiáveis é praticamente impossível.

O modelo, chamado PSRB (Positive Sequential Reconstruction via Breadth Search), surgiu de uma parceria entre Computação e Ciências Sociais. Além disso, os resultados da pesquisa aparecem no periódico científico Knowledge and Information Systems e foram assinados por Guilherme Henrique Messias, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação; Sylvia Iasulaitis, professora do Departamento de Ciências Sociais; e Alan Demétrius Baria Valejo, professor do Departamento de Computação.


Motivação da pesquisa

Segundo Messias, a ideia surgiu ao perceber que os métodos tradicionais usam textos de sites de checagem, como “Fato ou Fake?” e “Agência Lupa”. Entretanto, esses textos diferem muito das notícias falsas que circulam nas redes sociais.

“O texto em si, a forma como ele está construído, não é a forma como ele é disseminado”, explica Messias. “Nos questionamos: ‘Será que isso não está trazendo viés para os modelos de IA?’”. Por isso, a equipe buscou criar uma técnica mais robusta.


Como funciona o PSRB

O PSRB utiliza um paradigma chamado “aprendizado positivo e não rotulado”. Assim, o algoritmo aprende a classificar dados tendo acesso apenas a exemplos de conteúdos falsos. Os demais dados não possuem rótulo, e o modelo precisa identificar se são verdadeiros ou enganosos.

Para isso, os pesquisadores organizaram os dados como uma rede interconectada. Cada notícia funciona como um ponto, e relações entre elas — como palavras-chave em comum, proximidade temática ou conexões entre usuários — formam os elos da rede. Além disso, a técnica cria novas conexões artificiais entre notícias falsas conhecidas, fortalecendo a comunicação na rede. Dessa maneira, a rede neural em grafos (GNN) consegue aprender melhor os padrões da desinformação.


Testes e resultados

Os pesquisadores testaram o PSRB em cinco bases de dados científicas: Cora, CiteSeer, PubMed, Amazon Photo e DBLP. Eles compararam o modelo com seis algoritmos consolidados, simulando cenários com 1% a 25% de dados rotulados.

Os resultados mostraram que o PSRB superou métodos existentes, especialmente em redes fragmentadas, como Instagram e X (antigo Twitter), onde comunidades interagem pouco entre si. Portanto, a técnica se mostrou promissora para cenários complexos de disseminação de notícias.


Aplicações além das fake news

Embora a pesquisa tenha sido motivada por notícias falsas, o modelo pode ser usado em outras áreas. Por exemplo, a técnica já ajuda a identificar interações entre fármacos e proteínas. Messias explica: “Dessa forma, é possível descobrir novas interações entre medicamentos sem precisar realizar todo o treinamento laboratorial, que é caro e demorado”.

Outra aplicação possível é em redes de citações acadêmicas. Quando dois artigos se citam mutuamente, formam uma relação que o modelo pode usar para classificar pesquisas por área de conhecimento.


Desafios em tempo real

Os pesquisadores reconhecem desafios na aplicação em tempo real. “Nas redes sociais, novas notícias surgem a cada segundo. Aplicar esse método nesse fluxo contínuo é muito difícil”, afirma Messias. Nos experimentos, os dados já estavam organizados, o que não acontece em situações reais.

Outro estudo do grupo, apresentado no Bracis, mostrou que pré-processar textos com modelos de linguagem melhora os resultados. Assim, se os textos recebem tratamento prévio usando IA, os resultados melhoram ainda mais.

No entanto, a equipe identificou limitações, como o over-smoothing, fenômeno que ocorre quando o algoritmo agrega dados demais e perde capacidade de diferenciar informações.


Próximos passos

Os pesquisadores planejam aplicar o PSRB em problemas com mais de duas categorias e em fluxos contínuos de dados, como eleições ou crises de saúde pública. Dessa maneira, a técnica poderá analisar informações em tempo real, aumentando sua relevância no combate à desinformação.

Por Gessica Vieira
Foto: Reprodução
Jornalismo Portal Pn7

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Gessica Vieira

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