Restrição da União Europeia aumenta pressão por rastreabilidade do gado brasileiro

A rastreabilidade do rebanho brasileiro ganhou ainda mais importância para o acesso a mercados internacionais. Desde quinta-feira (3), a União Europeia passou a restringir a entrada de produtos brasileiros de origem animal, colocando o sistema de controle da produção pecuária no centro das discussões entre Brasil e o bloco europeu.
A medida alcança produtos como carne bovina, carne de frango, carne suína, pescados, ovos e mel e está relacionada às exigências europeias para controle do uso de antimicrobianos na produção animal.
A União Europeia considera que o Brasil ainda não apresentou garantias suficientes para comprovar o cumprimento integral das regras adotadas pelo bloco durante toda a cadeia produtiva.
O governo brasileiro contesta esse entendimento e sustenta que adotou medidas para atender às exigências.
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Restrição não significa carne contaminada
Um ponto importante é que a decisão europeia não decorre da identificação de contaminação ou de irregularidade sanitária específica em lotes de carne brasileira.
A discussão está relacionada à capacidade de demonstrar, por meio de registros e mecanismos de rastreabilidade, como os animais foram produzidos e quais medicamentos foram utilizados durante o ciclo produtivo.
As regras europeias estabelecem restrições ao emprego de determinados antimicrobianos na criação animal, especialmente aqueles utilizados como promotores de crescimento ou considerados importantes para tratamentos em humanos.
Para continuar atendendo esse mercado, o Brasil precisa oferecer garantias consideradas suficientes pelas autoridades europeias.
Rastrear o animal do nascimento ao abate
Na cadeia bovina, o desafio é particularmente complexo porque os animais podem passar por diferentes propriedades antes de chegar ao frigorífico.
A rastreabilidade permite reunir informações sobre a trajetória de cada bovino, desde o nascimento até o abate, incluindo movimentações entre propriedades e registros necessários para comprovar o atendimento aos protocolos exigidos pelos compradores.
O modelo brasileiro ainda utiliza amplamente mecanismos de controle de movimentação por lotes. Mercados mais exigentes, entretanto, avançam na direção da identificação individual.
Para exportadores, isso transforma rastreabilidade em uma questão que vai além da sanidade animal: ela passa a funcionar também como instrumento de acesso a mercados e competitividade internacional.
Brasil prepara identificação individual do rebanho
O país já trabalha na implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, estratégia destinada a ampliar gradualmente a rastreabilidade individual do rebanho brasileiro.
A proposta estabelece uma transição para que o país avance na identificação dos animais e consiga reunir informações mais detalhadas sobre a cadeia produtiva.
Esse processo ganha importância diante não apenas das regras sanitárias, mas também de outras exigências internacionais relacionadas à origem da produção.
Na prática, a tendência é que informações sobre procedência, movimentação, condições sanitárias e histórico produtivo tenham peso cada vez maior na comercialização internacional da carne.
Mercado europeu tem alto valor agregado
Embora a União Europeia não seja o maior destino da carne bovina brasileira em volume, trata-se de um mercado estratégico devido ao valor agregado dos produtos comercializados.
No caso das proteínas animais e demais produtos atingidos pela restrição, o impacto potencial sobre as exportações brasileiras pode chegar a US$ 2 bilhões por ano.
Para a carne bovina, a adaptação tende a exigir mais tempo que em cadeias de ciclo curto. Um bovino pode levar de dois a três anos entre nascimento e abate, o que significa que mudanças na rastreabilidade precisam acompanhar praticamente toda a vida produtiva do animal.
Brasil tenta reverter restrições
O governo brasileiro mantém negociações com as autoridades europeias e afirma ter adotado medidas para adequar os controles nacionais às exigências do bloco.
O país também apresentou documentação técnica e trabalha com protocolos destinados a comprovar o controle do uso de antimicrobianos.
Uma auditoria europeia realizada no Brasil avalia algumas das cadeias afetadas. Para aves e mel, o processo pode avançar mais rapidamente justamente porque o ciclo produtivo é menor.
Na bovinocultura, a necessidade de acompanhar individualmente animais durante um período muito mais longo torna a adequação mais complexa.
Independentemente do resultado das negociações atuais, a discussão deixa uma sinalização importante para o pecuarista brasileiro: rastreabilidade, controle sanitário e organização das informações da propriedade tendem a assumir papel cada vez maior na disputa pelos mercados internacionais.
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