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Justiça Educacional: sonhos e confissões numa escola rural de Jataí

Olhares atentos e inquietação. Foi assim que os alunos do 4° e 5° anos de uma escola rural, localizada a quase cem quilômetros de Jataí, ficaram ao assistir a palestra do juiz Sérgio Brito Teixeira e Silva

Olhares atentos e inquietação. Foi assim que os alunos do 4° e 5° anos de uma escola rural, localizada a quase cem quilômetros de Jataí, ficaram ao assistir a palestra do juiz Sérgio Brito Teixeira e Silva, da 1ª Vara (Cível e da Infância e da Juventude). A iniciativa, que é inédita na cidade, faz parte do Programa Justiça Educacional – Justiça e Cidadania Também se Aprendem na Escola, do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO). O programa, idealizado pela Associação dos Magistrados do Brasil (AMB), tem por objetivo promover maior integração entre magistrados e comunidade, bem como divulgar as funções, atividades e órgãos do Poder Judiciário.

Para que essa proximidade fosse maior, o magistrado trocou o terno por calça jeans e camisa e acabou causando espanto em Neymar, aluno apelidado assim por imitar o corte de cabelo de seu jogador de futebol preferido. O menino, que não desviava o olhar do magistrado, foi questionado se estava gostando da palestra e não hesitou: “sim, mas não imaginava que um juiz era assim. Achava que era gordo, com cara de bravo e barbudo”, respondeu Wilker Nogueira Oliveira, de 11 anos.

Destruir esse estereótipo permitiu que assuntos mais graves fossem tratados com o magistrado. Durante a palestra, uma aluna de 9 anos se sentiu segura para denunciar o padastro que, segundo ela, abusa de sua irmã. Na sala, onde havia cerca de 20 pessoas entre juiz, alunos, professores, coordenadores e reportagem, ela levantou o dedo e, narrou a história para todos, o que permitiu que o caso fosse apurado e resultasse na prisão de seu padrasto poucos dias depois.

Para o juiz, a situação exemplifica o nível de descontração e confiança que marca esses encontros. “Eles me receberam com uma maturidade que eu jamais presenciei numa sala de audiência. No fórum, a criança se fecha e aqui eles ficaram absolutamente à vontade”, observou Sérgio Teixeira. “Muitos me viram como amigo, não como um estranho. Conversamos, brincamos, orientei e aconselhei”, pontuou.

Realidade dura
A conversa com o magistrado durou mais de uma hora. Durante o bate papo, os alunos fizeram perguntas, tiraram dúvidas, receberam orientações, leram a cartilha, riram e até ganharam bombons. Mas, nem sempre a realidade deles é tão leve. Para conseguir chegar à escola, alguns alunos andam uma hora a pé e outros viajam horas de ônibus.

Roberta Kelly de Carvalho Souza, de 13 anos, é um exemplo. Ela acorda às 4h30 da manhã para não chegar atrasada na Escola Municipal Professor Chiquinho. “O transporte me pega 5 da manhã, sou a primeira, e demora muito a chegar na escola. Durante a viagem, eu fico observando a estrada, conversando com meus colegas e pensando em algumas coisas”, contou, ao ser questionada sobre o que faz no trajeto que dura quase seis horas, cerca de três para ir e três para voltar. Roberta é filha de vaqueiros e sonha em ter um computador, porém, morar e estudar na zona rural de Jataí não a impede de sonhar. “Sei que para ser médica tenho que estudar. Não adianta eu ficar em casa sozinha com minha mãe e com meu pai”, disse.

Ezequiel Alves Ferreira, de 10 anos, ainda não sabe “o que quer ser quando crescer”, mas tem uma certeza: “Não quero morar na roça, é muito parado. Vou à cidade a cada dois meses”, relatou. O menino tem três irmãos, que são seus companheiros nas brincadeiras. “Quando não estou na escola, andamos a cavalo, tratamos dos porcos e corremos no pasto”, disse. Aos 10 anos de idade, Luiz Renato Dias Carvalho já sabe o que quer da vida. “Gosto muito de estudar e pretendo me tornar um médico veterinário”, afirmou.

A jornada diária de Roberta, Ezequiel e Luiz Renato é exemplo comum na região. As crianças estudam no período da manhã, mas começam a se preparar já na madrugada. “A maioria dos alunos passa a maior parte do tempo na escola, acorda muito cedo e percorre quilômetros para estudar. Por isso, tentamos fazer do ambiente escolar o melhor possível para eles”, destacou a professora do 5° ano, Maria Ângela Lima Barros Lopes. Ela ressaltou que ações como estas incentivam e despertam nos alunos vários interesses. “Quando acabou a palestra, alguns me falaram que querem ser juízes também”, falou.

“É muito gratificante levar conhecimento do Poder Judiciário para essas crianças que estão distantes da cidade”, observou Sérgio Teixeira, para quem a função maior da escola é contribuir para a formação da cidadania e o Justiça Educacional também proporciona isso.

Texto: Arianne Lopes / Fotos: Aline Caetano 

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