Frei Rogério Soares leva debate sobre inteligência artificial e o “neo-humano” à sede do Google em São Paulo

O avanço da inteligência artificial já está transformando produtividade, trabalho e tomada de decisões dentro das empresas. Mas, para Frei Rogério Soares, essa mudança tecnológica provoca uma discussão que vai além das ferramentas: quanto mais as máquinas forem capazes de realizar, mais necessário será compreender aquilo que permanece essencialmente humano.
O tema será levado nesta terça-feira, 11 de agosto, à sede do Google, em São Paulo, onde Frei Rogério participa de um evento promovido pela ATM. Fundador da Pastoral do Empreendedor e pároco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Jataí (GO), o sacerdote e palestrante apresentará a palestra “A Inteligência Artificial e o Neo-Humano: um novo tempo para as empresas”.
A proposta é discutir os impactos da IA sobre o ambiente empresarial, mas sem limitar o debate aos ganhos de eficiência proporcionados pela tecnologia. Frei Rogério propõe uma reflexão sobre o próprio papel das pessoas em uma sociedade na qual sistemas inteligentes passam a executar tarefas antes exclusivamente humanas.
“A inteligência artificial não está apenas transformando aquilo que fazemos. Ela está nos obrigando a perguntar novamente quem somos. Quanto mais as máquinas forem capazes de realizar, mais teremos de compreender aquilo que é propriamente humano”, afirma.
O que é o “neo-humano”
Um dos conceitos centrais apresentados por Frei Rogério é o do “neo-humano”.
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Na abordagem proposta pelo palestrante, trata-se de uma pessoa capaz de utilizar a inteligência artificial para ampliar conhecimento, criatividade e capacidade de ação, mas sem transferir à tecnologia aquilo que pertence à consciência e à responsabilidade humana.
A IA poderia funcionar, nesse contexto, como uma espécie de “segundo cérebro”, auxiliando na pesquisa, organização de informações, análise de dados e suporte às decisões.
“O neo-humano não será aquele que possui mais tecnologia, mas aquele que sabe utilizá-la sem perder o domínio de si mesmo. Teremos um segundo cérebro poderoso, mas o primeiro continuará responsável pela direção e pelo sentido”, explica.
A reflexão coloca uma questão que tende a ganhar espaço dentro das organizações: se diferentes empresas tiverem acesso às mesmas tecnologias, a vantagem competitiva poderá estar cada vez menos na ferramenta utilizada e mais na capacidade humana de empregá-la com estratégia e propósito.
IA encontra padrões; pessoas precisam encontrar sentido
Outro conceito abordado na palestra é o do empreendedor nexialista, definido como aquele capaz de estabelecer conexões entre conhecimentos, tecnologias, pessoas, necessidades e oportunidades.
Para Frei Rogério, a capacidade computacional pode identificar padrões e apresentar possibilidades em grande escala, mas isso não elimina a necessidade de interpretação humana.
“A inteligência artificial encontra padrões; o empreendedor precisa encontrar sentido. A máquina oferece possibilidades; cabe ao ser humano perceber quais delas realmente criam valor para as pessoas”, afirma.
Nesse cenário, conhecimento técnico sobre inteligência artificial seria apenas uma parte das competências exigidas dos profissionais e empresários.
Da alta performance para a “alta integração”
A discussão também alcança um modelo bastante difundido no ambiente empresarial: a busca permanente por alta performance.
Frei Rogério argumenta que uma parcela crescente das atividades relacionadas à produtividade operacional poderá ser absorvida pela inteligência artificial. Com isso, o profissional do futuro precisaria avançar para aquilo que ele denomina “alta integração”.
A proposta envolve conciliar competência tecnológica e preparação intelectual com saúde emocional, relações pessoais, família, estudo e autoconhecimento.
“Talvez a verdadeira alta performance do futuro não seja produzir o máximo possível, mas tornar-se inteiro o suficiente para saber o que merece ser produzido”, diz.
Tecnologia para reduzir o trabalho mecânico
Na visão apresentada pelo sacerdote, a automação não deveria simplesmente acelerar a rotina das pessoas, mas assumir atividades repetitivas para liberar tempo destinado a tarefas nas quais as capacidades humanas são determinantes.
“A máquina deve fazer coisas de máquina para que o ser humano tenha tempo de fazer coisas de gente”, resume.
Aplicado às empresas, o princípio significa utilizar inteligência artificial para reduzir burocracia e retrabalho, enquanto profissionais concentram esforços em criatividade, estratégia, relacionamento, atendimento e construção de confiança.
Frei Rogério também considera que a disseminação da IA entre consumidores modificará essa relação. Se clientes e empresas passarem a contar com ferramentas capazes de pesquisar, comparar e responder rapidamente, atributos essencialmente humanos poderão ganhar ainda mais importância.
“Quando todas as empresas puderem responder rapidamente, a escuta será diferencial. Quando todas puderem personalizar ofertas, confiança será diferencial. Quanto mais artificial for a inteligência utilizada pelas empresas, mais humano deverá ser o valor entregue por elas”, afirma.
Quanto mais tecnologia, maior pode ser o valor do encontro humano
A palestra também leva a discussão para aspectos da vida que ultrapassam o ambiente empresarial.
Frei Rogério sintetiza essa perspectiva em um paradoxo: “Não haverá vida fora da inteligência artificial, mas a vida só será possível fora dela.”
A primeira parte da reflexão considera a tendência de incorporação da IA às atividades profissionais e cotidianas. A segunda estabelece um limite para essa presença: existem experiências que a tecnologia pode auxiliar, mas não viver no lugar das pessoas.
“A inteligência artificial poderá organizar nossa agenda, mas não poderá viver nossa família. Poderá produzir uma mensagem, mas não poderá amar por nós. Poderá explicar uma oração, mas não poderá rezar por nós”, afirma.
A partir dessa perspectiva, Frei Rogério sustenta que o avanço tecnológico poderá, paradoxalmente, aumentar o valor atribuído ao encontro presencial, à família, à comunidade, ao silêncio, à contemplação e à espiritualidade.
“Talvez a grande promessa da inteligência artificial não seja tornar o ser humano mais parecido com uma máquina. Talvez seja permitir que a máquina assuma aquilo que é mecânico para que o ser humano tenha mais tempo para ser humano”, conclui.
A participação de Frei Rogério em São Paulo leva para o ambiente empresarial um debate que tende a se intensificar à medida que a inteligência artificial amplia sua presença nas empresas: não apenas o que a tecnologia será capaz de fazer, mas quais decisões e responsabilidades continuarão necessariamente nas mãos das pessoas.
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