Dia de Combate às Drogas: 11,7 milhões sofrem com álcool no Brasil
No Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, celebrado em 20 de fevereiro, especialistas reforçam o alerta para um problema que afeta milhões de brasileiros e impõe desafios crescentes à saúde pública. O consumo de álcool e outras drogas no país segue como uma questão social complexa, que ultrapassa a esfera individual e exige políticas de prevenção, cuidado e acolhimento.
Relatórios de 2025, com base no 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), indicam que mais de 11,7 milhões de brasileiros vivem com transtorno por uso de álcool. Além disso, o levantamento mostra que a experimentação começa cedo: cerca de 56% da população relatou ter consumido bebidas alcoólicas antes dos 18 anos, ainda na adolescência.
Entre os jovens, o uso de substâncias ilícitas também preocupa. Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que aproximadamente 7,4% já fizeram uso desse tipo de substância. Os números evidenciam que o fenômeno atravessa diferentes faixas etárias e contextos sociais.
Sofrimento emocional por trás do consumo
Para especialistas, os dados revelam não apenas a dimensão do problema, mas também a necessidade de olhar além da substância. Muitas vezes, o consumo está associado a sofrimento emocional profundo, vulnerabilidade social e tentativas de lidar com dores internas que nem sempre são visíveis.
A professora de Psicologia Mariana Ramos, afirma que reduzir o tema à falta de força de vontade é um erro recorrente. Segundo ela, a substância pode surgir como forma de anestesia emocional temporária. Ansiedade, solidão, exaustão e experiências traumáticas figuram entre os fatores que podem levar ao uso, especialmente quando faltam suporte e rede de apoio.
Ela também destaca a influência cultural e social. Em determinados contextos, o álcool assume o papel de mediador para lidar com inseguranças e pressões sociais, como se fosse necessário para relaxar ou pertencer a um grupo.
O professor de Psiquiatria Luís Carlos Bochenek, reforça que a dependência deve ser compreendida como um transtorno de saúde mental multifatorial. Para ele, a dependência química não representa fraqueza. Quanto mais cedo o cuidado começa, maiores são as chances de recuperação e reconstrução de vínculos.
Bochenek explica que álcool e drogas frequentemente aparecem como tentativa de aliviar sintomas psíquicos difíceis de identificar ou nomear. Embora tragam alívio imediato, podem abrir caminho para quadros de dependência.
Abordagem ampla e acesso ao cuidado
Especialistas defendem que o enfrentamento mais eficaz passa por uma abordagem humana e integral. O foco não deve recair apenas sobre a substância, mas também sobre emoções, história de vida, ambiente social e acesso a serviços de saúde.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito e especializado por meio dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), que integram a rede pública de saúde mental.
Orientações para usuários e familiares
Especialistas listam dez orientações de cuidado para usuários e familiares:
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Reconheça o que está por trás do impulso: pergunte a si mesmo o que está tentando aliviar.
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Busque apoio antes que vire isolamento: o uso problemático cresce no silêncio.
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Observe padrões, não apenas episódios isolados.
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Reduza o julgamento e aumente a escuta: substitua críticas por acolhimento.
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Fortaleça pequenas redes de cuidado: um contato de confiança já faz diferença.
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Procure alternativas de regulação emocional, como respiração, caminhada, escrita, terapia ou música.
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Não espere para buscar ajuda profissional.
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Entenda que recaídas podem fazer parte de processos complexos.
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Cuide da exaustão e do excesso de cobrança, que aumentam a vulnerabilidade emocional.
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Informe-se sobre o suporte gratuito disponível no SUS, especialmente nos CAPS AD.
O Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo reforça, portanto, a necessidade de ampliar o debate, reduzir o estigma e garantir acesso ao cuidado. Especialistas ressaltam que tratar a dependência como questão de saúde pública é passo fundamental para promover prevenção, recuperação e reconstrução de trajetórias.
Por Gessica Vieira
Foto: Reprodução
Jornalismo Portal Pn7
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