Crédito privado ganha espaço no agro diante da perda de força do financiamento público
O modelo de financiamento do agronegócio brasileiro passa por uma transformação estrutural. Nesse contexto, cresce a participação do crédito privado, enquanto o papel do Estado perde força relativa. A avaliação é de cooperativas do setor, que apontam o avanço do mercado de capitais como alternativa diante das limitações fiscais.
Atualmente, embora o Plano Safra continue relevante como referência de taxas e diretrizes, ele já não é mais o principal motor do financiamento da produção. Dessa forma, o setor passa a depender cada vez mais de instrumentos privados.
Durante a apresentação da agenda institucional, o presidente do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas, destacou que a capacidade do governo de sustentar o crédito rural vem diminuindo ao longo dos anos.
“Nós vamos ter dificuldade. A capacidade dos governos de arrumar crédito para a agricultura brasileira está cada vez mais diminuída. E não é só incompetência, é impotência. Os governos têm outras prioridades”, afirmou.
Segundo ele, enquanto o Tesouro Nacional destina cerca de R$ 13 bilhões para equalizar juros, o agronegócio movimenta aproximadamente R$ 2 trilhões. Portanto, essa diferença vem sendo suprida por operações privadas, como barter, crédito de fornecedores e emissões no mercado financeiro.
Além disso, Freitas ressaltou que o avanço desse modelo depende de fatores essenciais, como segurança jurídica e mecanismos de mitigação de risco. Atualmente, as maiores cooperativas já operam no mercado financeiro, inclusive com emissão de títulos internacionais.
De acordo com dados do Ministério da Agricultura, o estoque de instrumentos privados — como CPR, LCA e CRA — já supera R$ 1,4 trilhão no país. Assim, a participação do mercado de capitais no financiamento da produção segue em expansão consistente.
Na avaliação de técnicos do governo, essa diversificação deixou de ser apenas uma tendência. Pelo contrário, tornou-se uma necessidade diante do aumento do custo do crédito público e das limitações fiscais.
Queda de renda pressiona produtores
Por outro lado, essa mudança ocorre em um momento de maior fragilidade financeira no campo. Isso porque a queda nos preços das commodities, combinada com custos elevados, tem reduzido as margens da atividade rural.
Segundo Freitas, o recuo no preço da soja ilustra bem esse cenário. “Nós vendíamos soja dois anos atrás a R$ 200, hoje está a R$ 110. Com custo subindo, com guerra, com insumo e diesel mais caros, o produtor fica pressionado”, explicou.
Como consequência, observa-se aumento do endividamento no setor. Além disso, cresce a necessidade de renegociação de dívidas, especialmente entre produtores de menor escala.
“Os menos eficientes estão com problema, e essa parcela não é pequena. Portanto, vamos ter que alongar prazos e renegociar para dar fôlego até que eles se ajustem”, afirmou.
Dependência de insumos preocupa setor
Ao mesmo tempo, a dependência de insumos importados surge como um risco estrutural relevante. Em cenários de instabilidade geopolítica, essa vulnerabilidade se torna ainda mais evidente.
A presidente executiva da OCB, Tânia Zanella, destacou que o Brasil ainda depende fortemente de fertilizantes vindos do exterior. Nesse sentido, ela defende a adoção de políticas estruturantes.
“Quando há guerra ou instabilidade, percebemos o quanto precisamos avançar em soluções internas”, afirmou.
Dessa maneira, o setor reforça a necessidade de desenvolver alternativas nacionais e diversificar as fontes de suprimento.
Cooperativas ganham protagonismo
Diante desse cenário, as cooperativas tendem a ampliar ainda mais seu papel no agronegócio. Isso ocorre porque elas atuam como ponte entre produtores e financiamento, além de oferecerem insumos, armazenagem e apoio à comercialização.
Atualmente, cerca de 54% da originação da produção agropecuária passa por cooperativas. Assim, o cooperativismo se consolida como peça-chave na organização do setor.
Segundo Zanella, além da originação, há crescimento das agroindústrias ligadas às cooperativas, o que fortalece ainda mais sua relevância.
Agenda para 2026 foca em reduzir riscos
Por fim, o setor apresentou sua agenda institucional para 2026 com foco na redução de riscos e no aumento da previsibilidade. Entre as prioridades, destaca-se o fortalecimento do seguro agrícola.
De acordo com Zanella, esse instrumento é essencial diante do aumento do endividamento e da volatilidade no campo.
“O seguro agrícola é uma falta fundamental. O projeto em tramitação pode mudar significativamente o panorama do setor”, afirmou.
Além disso, a agenda inclui a manutenção do crédito rural, o estímulo a instrumentos privados, políticas para reduzir a dependência de fertilizantes e investimentos em logística e armazenagem.
Em resumo, o agronegócio brasileiro avança para um modelo mais diversificado de financiamento. Nesse novo cenário, o mercado de capitais e as cooperativas assumem papel cada vez mais central na sustentação da produção.
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