Fechamento da safrinha exige olhar para lucro, custos e caixa

Encerrar a colheita da safrinha não significa apenas contabilizar quantas sacas foram produzidas ou quanto dinheiro entrou na conta. Para saber se a lavoura realmente deu lucro, o produtor rural precisa analisar conjuntamente produtividade, preço de venda, custos de produção, despesas financeiras e o resultado efetivamente gerado pela atividade.
A avaliação foi destacada pela consultora em gestão financeira de fazendas Laura Assis de Freitas, durante entrevista ao PN7 em Pauta. Segundo ela, um dos principais erros na gestão rural é medir o desempenho da safra apenas pela produtividade.
“Colher bem não significa que o produtor rural teve um resultado positivo”, explicou Laura.
De acordo com a consultora, a receita resulta da combinação entre a quantidade produzida e o preço de comercialização. Por isso, uma quebra de produtividade pode ser parcialmente compensada por um preço melhor, enquanto uma boa colheita pode não representar um resultado positivo caso o valor recebido pela produção seja baixo.
Custos que podem ficar escondidos
Entre os itens que precisam entrar no fechamento da safra está o arrendamento. Laura explica que o custo deve ser distribuído corretamente quando a mesma área é utilizada em mais de uma cultura.
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A lógica também vale para outros gastos que nem sempre são percebidos no momento da comercialização, como manutenção de máquinas, combustível, funcionários, despesas administrativas, seguros e gastos da família relacionados à propriedade.
Segundo a consultora, em alguns casos analisados por ela, a manutenção de máquinas chegou a representar entre 15% e 20% da receita. Nesses cenários, os números podem ajudar o produtor a decidir se vale mais a pena continuar mantendo determinado equipamento ou planejar uma substituição.
Outro ponto de atenção são as compras parceladas. O prazo pode esconder o impacto dos juros sobre a rentabilidade da lavoura. Laura citou casos de produtores que pagam taxas anuais superiores a 20% em determinados financiamentos de maquinário, enquanto a própria lavoura apresenta uma margem menor.
Transformar custos em sacas por hectare
Uma das formas apresentadas pela consultora para facilitar a análise é transformar os custos financeiros em sacas por hectare.
Para isso, o produtor deve registrar os gastos da propriedade e relacioná-los ao preço da saca e à área cultivada. Dessa maneira, é possível identificar quanto cada despesa representa dentro da produção.
No exemplo apresentado durante a entrevista, uma propriedade poderia ter custos de insumos equivalentes a 30 sacas por hectare, frete de duas sacas e arrendamento correspondente a outras 15 ou 18 sacas. Somados os demais gastos, o custo total poderia chegar a 60 ou 65 sacas por hectare.
Se a produtividade for de 70 sacas, por exemplo, a diferença entre produção e custo representa a margem antes de considerar outros componentes que ainda precisam ser analisados, como os juros.
A conta também ajuda a identificar o chamado ponto de equilíbrio. Se uma propriedade tem custo de 66 sacas por hectare e produz apenas 60, o resultado operacional não é satisfatório. Nesse caso, o produtor precisa avaliar tanto a possibilidade de aumentar a produtividade quanto a redução dos custos.
Produzir mais nem sempre significa gastar proporcionalmente menos
Aumentar a produtividade também exige atenção aos custos variáveis. Uma produção maior pode demandar mais fertilizantes, adubação, combustível, frete e outros recursos.
Por isso, o produtor deve avaliar quanto foi necessário gastar para alcançar a produção adicional. Ainda assim, quando a produtividade supera o ponto de equilíbrio, o resultado tende a ser melhor, desde que o aumento dos custos não elimine essa margem.
Para Laura, o objetivo não deve ser apenas pagar as contas. O produtor precisa buscar resultado suficiente para gerar lucro e fortalecer o patrimônio da atividade.
Planejamento ajuda na comercialização
O fechamento da safrinha também deve servir de referência para o planejamento da próxima safra. Entre os pontos destacados está a definição da estratégia de comercialização.
A recomendação apresentada na entrevista é trabalhar com diferentes cenários de preço — pessimista, realista e otimista — antes do plantio. A partir do custo estimado da produção, o produtor consegue avaliar qual preço precisa alcançar para proteger a margem.
Laura citou como exemplo a possibilidade de trabalhar com uma parcela da produção já comercializada ou protegida antecipadamente. Segundo ela, uma estratégia na faixa de 30% a 50% da produção pode ajudar a garantir cobertura de parte dos custos operacionais, desde que seja adequada à realidade financeira e comercial de cada propriedade.
Duas fazendas podem produzir igual e lucrar diferente
Outro ponto destacado é a necessidade de analisar cada propriedade ou área individualmente.
Laura relatou o caso de um cliente que possuía quatro áreas. Quando os resultados foram analisados separadamente, uma delas estava consumindo o lucro gerado pelas outras três.
A estratégia, segundo ela, é separar produtividade e custos de cada área e fazer o rateio dos gastos compartilhados, como máquinas e funcionários. Depois, os resultados podem ser consolidados para avaliar o desempenho do grupo.
A mesma lógica pode ser aplicada aos talhões. O produtor pode registrar quanto foi colhido em cada área e comparar o resultado com os gastos realizados. Assim, é possível identificar quais talhões apresentam melhor desempenho e quais precisam de correção de solo, investimentos ou até mesmo uma mudança de estratégia de uso.
Lucro e caixa não são a mesma coisa
Um dos alertas mais importantes da entrevista é a diferença entre lucro e disponibilidade de dinheiro no caixa.
O resultado da safra é calculado a partir da receita e dos custos relacionados à produção. Já o fluxo de caixa mostra para onde o dinheiro está sendo destinado e quais compromissos precisam ser pagos.
Por isso, uma propriedade pode apresentar lucro e, ainda assim, não ter dinheiro disponível. Parte do resultado pode estar sendo utilizada para pagar parcelas de máquinas, investimentos, contas antigas ou outros compromissos financeiros.
Da mesma forma, ter dinheiro no caixa não significa necessariamente que a atividade esteja dando lucro. O saldo pode vir de uma venda, de recursos de custeio ou de outros valores que entraram na propriedade.
Segundo Laura, confundir caixa com rentabilidade pode levar o produtor a assumir compromissos que não consegue sustentar posteriormente.
“Uma das maiores confusões é eu realmente assumir compromissos que eu não posso assumir”, afirmou.
Crédito não deve servir para esconder prejuízo
Quando o fechamento da safra aponta prejuízo, a orientação é encarar rapidamente o problema e negociar os compromissos existentes, em vez de simplesmente acumular novas dívidas.
A consultora recomenda conversar com revendas, oficinas e instituições financeiras para buscar condições de pagamento compatíveis com a capacidade da propriedade. Também é necessário avaliar cuidadosamente os juros envolvidos em uma renegociação.
Para Laura, o crédito deve ser utilizado como ferramenta para melhorar o resultado da propriedade, e não apenas para cobrir despesas básicas que a própria produção não consegue pagar.
“Não pegue um crédito para tampar um buraco por falta de resultado do seu negócio”, alertou.
O que fazer quando a safrinha termina
Com o encerramento da safrinha e a aproximação de uma nova safra, o produtor pode utilizar os números do ciclo que terminou para tomar decisões mais seguras.
A primeira etapa é fechar o resultado real da lavoura, considerando todos os custos. Depois, é preciso identificar o que funcionou, quais despesas pesaram mais, quais áreas tiveram melhor desempenho e onde existe possibilidade de aumentar produtividade ou reduzir gastos.
Se houver lucro, a recomendação apresentada por Laura é evitar que todo o resultado seja imediatamente consumido. Ela sugere dividir o dinheiro entre o produtor e a família, o caixa da fazenda e investimentos na própria operação.
A manutenção de uma reserva no caixa pode, inclusive, melhorar o poder de negociação nas próximas compras, permitindo pagamentos à vista e obtenção de descontos.
Assim, o fechamento da safrinha deixa de ser apenas uma prestação de contas e passa a funcionar como uma ferramenta para preparar a próxima safra, reduzir riscos e orientar decisões dentro da propriedade.
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