Do trigo à batata-doce, nova revolução do etanol amplia oportunidades para o agronegócio brasileiro
Conhecido mundialmente pela forte produção de etanol à base de cana-de-açúcar, o Brasil vive uma nova etapa de transformação no setor de biocombustíveis. Além das tradicionais matérias-primas, diversas culturas agrícolas e até resíduos industriais e alimentares começam a ganhar espaço na produção de combustíveis renováveis.
A chamada “terceira onda” do etanol brasileiro reúne investimentos de grandes empresas e iniciativas inovadoras que apostam em matérias-primas como trigo, cevada, sorgo, soja, batata-doce, agave e até restos de alimentos descartados. A proposta é ampliar a oferta de biocombustíveis, diversificar a produção agrícola e fortalecer a segurança energética do país.
Segundo Alexandre Breda, gerente de tecnologia de baixo carbono da Shell no Brasil, a transição energética depende da combinação de diferentes fontes.
“O futuro da transição energética não é um mundo de ‘ou’, mas sim de ‘e’. Precisamos da cana-de-açúcar, do milho, do agave, do trigo e de toda a biomassa. Uma única matéria-prima não trará a resposta”, afirmou.
Atualmente, a indústria brasileira de etanol movimenta cerca de US$ 20 bilhões por ano, sendo a segunda maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. A ampla frota nacional de veículos flex, capazes de utilizar gasolina com etanol ou etanol hidratado, ajudou o país a reduzir os impactos das recentes oscilações no mercado internacional de energia.
Enquanto a alta dos combustíveis provocada pelas tensões geopolíticas elevou significativamente os preços em diversos países, no Brasil o aumento foi mais moderado. Dados nacionais apontam que o litro da gasolina passou de R$ 6,32 em janeiro para R$ 6,62 no fim de maio, uma alta de aproximadamente 5%.
De acordo com projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), cerca de 28,5 bilhões de litros do etanol brasileiro em 2026 ainda serão produzidos a partir da cana-de-açúcar, o equivalente a 71% do total. Outros 11,2 bilhões de litros deverão ser originados de diferentes culturas agrícolas, principalmente milho, mas também soja, trigo e cereais de inverno.
Um dos maiores projetos dessa nova fase é conduzido pela Be8, maior produtora de biodiesel do país. A empresa investe R$ 1,7 bilhão na construção de uma biorrefinaria em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, destinada à produção de etanol a partir de trigo e outros grãos de inverno. A unidade, prevista para entrar em operação em março de 2027, terá capacidade para produzir 220 milhões de litros por ano.
Para o fundador e CEO da companhia, Erasmo Carlos Battistella, a tecnologia permitirá que estados tradicionalmente fora das grandes cadeias do etanol passem a integrar esse mercado.
“O Rio Grande do Sul ficou fora tanto da primeira onda, que foi a cana, quanto da segunda, que foi o milho. Agora vem uma terceira onda pelo amadurecimento das tecnologias que vão utilizar as matérias-primas que nós temos aqui”, destacou.
Apesar do avanço das novas alternativas, representantes do setor sucroenergético demonstram preocupação com a possibilidade de excesso de oferta. Produtores de cana afirmam que a expansão acelerada do etanol de milho e de outras fontes pode pressionar ainda mais um mercado que já enfrenta preços baixos do açúcar.
Por outro lado, especialistas acreditam que medidas do governo, como o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina para 32%, previsto para os próximos meses, deverão ampliar a demanda pelo biocombustível em cerca de 1 bilhão de litros por ano.
Além da produção de combustível, a utilização de novas matérias-primas abre espaço para a geração de coprodutos de alto valor agregado. O etanol de trigo e de milho, por exemplo, gera os chamados DDGs (grãos secos de destilaria), ricos em proteínas e utilizados na alimentação animal, criando uma importante fonte adicional de renda para os produtores.
No interior de São Paulo, produtores também encontraram uma solução para o excedente de batata-doce, que muitas vezes permanecia nas lavouras por falta de viabilidade econômica para a colheita. A transformação do tubérculo em etanol e ração animal garante o aproveitamento da produção e reduz desperdícios.
Grandes processadoras de soja também aderiram ao movimento. Empresas como Caramuru e CJ Selecta passaram a produzir etanol utilizando o melaço resultante do processamento da oleaginosa, agregando valor a um subproduto de baixa rentabilidade.
Até mesmo resíduos alimentares estão sendo aproveitados. A Ambipar utiliza xaropes de refrigerantes e outros descartes industriais para produzir cerca de 2,4 milhões de litros de etanol por ano, demonstrando o potencial da economia circular aplicada ao setor energético.
No semiárido brasileiro, a Shell investe R$ 100 milhões em pesquisas para avaliar a viabilidade do agave — planta utilizada na fabricação de tequila e mezcal — como matéria-prima para produção de etanol. Caso os estudos sejam bem-sucedidos, a cultura poderá representar uma alternativa sustentável para regiões de clima árido em diferentes partes do mundo.
A diversificação das fontes de produção consolida o Brasil como uma das maiores referências globais em biocombustíveis e reforça o papel estratégico do agronegócio na transição para uma matriz energética mais limpa, sustentável e menos dependente dos combustíveis fósseis.
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